
Contaminação por
metais pesados
Pesquisa indica
que solo de parques públicos em São Paulo tem elevada concentração
de metais potencialmente tóxicos, como chumbo e arsênio
São Paulo, 08 de maio
de 2.009 – Estudo sobre o teor de metais em solos superficiais de 14
parques públicos do município de São Paulo revelou elevada presença
de metais potencialmente tóxicos, como chumbo, cobre e arsênio.
As concentrações
estão acima dos valores de referência definidos pela Companhia de
Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e acima de valores de
intervenção em países como Alemanha e Holanda, o que poderia
representar risco para a saúde dos freqüentadores.
Durante dois anos, de
2006 a 2008, a química Ana Maria Graciano Figueiredo, pesquisadora
do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), coletou e
analisou amostras de solos urbanos dos seguintes parques da capital
paulista: Luz, Buenos Aires e Trianon, na região central; Vila dos
Remédios, Cidade de Toronto e Rodrigo Gáspari (zona Norte);
Ibirapuera e Guarapiranga (zona Sul); Carmo, Raul Seixas e Chico
Mendes (zona Leste); Raposo Tavares e Alfredo Volpi (zona Oeste).
A amostra foi
definida pela abrangência de várias regiões da cidade e pela
localização. A idéia foi estudar parques em pontos com diferentes
densidades de tráfego de veículos, uma vez que estudos em cidades
como Madri, Palermo, Hong Kong e Paris associaram o aumento na
concentração de metais em solos urbanos à elevação da poluição por
metais no meio ambiente, como os originados pela deposição
atmosférica de partículas geradas pelo tráfego de automóveis.
Em uma pesquisa
preliminar, Ana Maria analisou a concentração de platina, paládio e
ródio – elementos comumente presentes nos catalisadores dos
automóveis – em solos adjacentes à rodovia dos Bandeirantes. A
pesquisadora observou que, quanto mais próximo à estrada, maior era
a concentração desses elementos e de materiais relacionados ao
tráfego (como chumbo, cobre e zinco) e vice-versa. A experiência
inspirou o trabalho nos parques da metrópole.
Com autorização e
apoio do Departamento de Áreas Verdes (Depave) da Prefeitura de São
Paulo, foram coletadas amostras do solo de cada um dos parques, em
profundidades de 0 a 20 centímetros, e em linhas cruzando os
parques, a cada 30 metros de distância, buscando maior
representatividade na coleta. O material foi reunido especialmente
em locais com maior freqüência, como áreas de lazer, playground,
áreas de práticas esportivas e de caminhada.
“As amostras foram
analisadas por ativação de nêutrons instrumental e fluorescência de
raios X, técnicas que apresentam alta sensibilidade e exatidão na
análise quantitativa e qualitativa do material, sem destruí-lo”,
explicou Ana Maria.
“O foco da análise
foi observar as concentrações de chumbo, cobre, cromo, zinco,
cobalto, bário, arsênio e antimônio, por apresentarem riscos à saúde
humana e serem os mais comumente encontrados em casos de
contaminação de solos”, disse.
Ana Maria explica que
metais são naturalmente encontrados em solos. “Porém, em altas
concentrações, qualquer um dos elementos encontrados na amostra pode
oferecer riscos à saúde, até mesmo o zinco, que é essencial à
saúde. Os valores de referência da Cetesb são equivalentes a um
solo considerado limpo, ou seja, cuja concentração está dentro de
padrões naturais”, acrescentou.
Realizado com apoio
da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa – Regular, o estudo
revela que, com exceção do cobalto, todos esses elementos estão
presentes no solo dos parques analisados em quantidade acima dos
valores de referência da Cetesb e de agências reguladoras de países
como Holanda e Alemanha.
Valores e
parâmetros
Algumas concentrações de metais chamam atenção. Foram encontradas
elevadas concentrações de chumbo nos parques Buenos Aires (439 mg/kg),
Luz (209 mg/kg), Trianon (230 mg/kg) e Aclimação (260 mg/kg). Essas
quantidades estão acima do Valor de Intervenção Agrícola (VI) para o
metal, que é de 180 mg/kg. O indicador é usado pela Cetesb para
apontar a partir de qual concentração algum elemento pode oferecer
riscos potenciais, diretos ou indiretos, à saúde humana,
considerando a exposição a solos genéricos (existem valores para
solo residencial e industrial).
Tanto o Parque Buenos
Aires como o da Luz têm concentração de cobre de até 382 mg/kg e
324mg/kg, respectivamente, quantidade superior ao VI, definido em
200 mg/kg e acima dos parâmetros internacionais (190 mg/kg). Já o
Trianon, com 106 mg/kg de cobre está acima do Valor de Prevenção (VP)
da Cetesb, que define a concentração de determinada substância,
acima da qual podem ocorrer alterações prejudiciais à qualidade do
solo e da água subterrânea. Para o cobre, o VP é 60 mg/kg.
O nível de
concentração de cromo nos parques Ibirapuera (121mg/kg), Aclimação
(112), Luz (146), Buenos Aires (105) e Vila dos Remédios (103) está
acima do VP, que a Cetesb estabelece em 75 mg/kg.
“Com exceção dos
parques Alfredo Volpi, Raul Seixas, Carmo e Guarapiranga, todos os
demais estão com concentração de zinco acima do Valor de Referência
de Qualidade (VRQ), definido pela Cetesb como parâmetro para solo
limpo ou para qualidade da água subterrânea”, disse Ana Maria.
Para cromo, o VRQ é
60 mg/kg. Vale destacar que o Parque Buenos Aires tem concentração
de cromo de 423 mg/kg, o que supera o parâmetro de prevenção da
Cetesb, que é de 300 mg/kg.
Os valores de bário
encontrados nos parques Toronto (875 mg/kg) e Rodrigo de Gáspari
(936 mg/kg) excedem os valores de referência da Holanda, onde
possivelmente seria recomendada uma investigação.
Guarapiranga, Vila
dos Remédios, Luz, Trianon e Aclimação estão com concentração de
bário acima do Valor de Intervenção sugerido pela Cetesb. O
antimônio é outro metal presente em quantidade acima do VI (5mg/kg),
especialmente nos parques da Luz (11,5 mg/kg) e Buenos Aires (12 mg/kg).
A concentração de
arsênio é de 39 mg/kg nos parques Ibirapuera, Aclimação, Trianon e
Vila dos Remédios; 40mg/kg no parque Chico Mendes e 56 mg/kg no da
Luz, todos acima dos valores de intervenção da Cetesb e da Holanda,
que estão fixados em 35 mg/kg.
“Os parâmetros da
Cetesb são os únicos disponíveis para solos do Estado de São Paulo.
Porém, os valores da companhia se baseiam em resultados de análises
realizadas com auxílio de ácidos, enquanto as técnicas de ativação
de nêutrons instrumental e fluorescência de raios X são valores
totais, uma vez que não há dissolução do material, o que pode
ocasionar diferenças nos resultados”, ressaltou Ana Maria.
Riscos à saúde
Para a pesquisadora do Ipen, a influência da qualidade do solo na
saúde de seres humanos tem sido pouco estudada e mesmo subestimada.
“Por meio da ingestão de solo aderido à pele ou aos dedos, inalação
e absorção dérmica, os componentes minerais, químicos e biológicos
dos solos podem ser prejudiciais à saúde”, apontou.
Segundo Ana Maria, a
ingestão de solo tem sido reconhecida como a mais importante fonte
de contaminação por chumbo, especialmente por crianças, que são mais
suscetíveis.
“Elevadas
concentrações de metais no solo têm sido relacionadas a altas
concentrações de metais no sangue de crianças. Retardamento do
desenvolvimento cognitivo e atividade intelectual prejudicada em
crianças têm sido relacionados a exposição a chumbo, por exemplo”,
disse.
Os resultados do
estudo foram publicados em artigo no Journal of Radionalytical
and Nuclear Chemistry em março e serão apresentados no Congresso
Brasileiro de Geoquímica, em outubro, em Ouro Preto.
Em continuidade à sua
investigação, a pesquisadora está analisando também a característica
dos solos da marginal Pinheiros, marginal Tietê, Rebouças,
Tiradentes, Radial Leste, Jacu Pêssego e 23 de Maio.