A gripe suína e o monstruoso poder
da indústria agropecuária
Mike Davis
São Paulo, maio
de 2.009 - Em 1965, havia nos EUA 53 milhões de porcos
espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões
de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou
passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos
quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a
intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio,
amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas
imunológicos debilitados.
Cientistas
advertem sobre o perigo das granjas industriais: a contínua
circulação de vírus nestes ambientes aumenta as oportunidades de
aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre
humanos. A análise é de Mike Davis.
A gripe
suína mexicana, uma quimera genética provavelmente concebido na
lama fecal de um criadouro industrial, ameaça subitamente o
mundo inteiro com uma febre. Os brotos na América do Norte
revelam uma infecção que está viajando já em maior velocidade do
que aquela que viajou a última cepa pandêmica oficial, a gripe
de Hong Kong, em 1968.
Roubando o protagonismo de nosso último assassino oficial, o
vírus H5N1, este vírus suíno representa uma ameaça de magnitude
desconhecida. Parece menos letal que o SARS (Síndrome
Respiratória Aguda, na sigla em inglês) em 2003, mas como gripe,
poderia resultar mais duradoura que a SARS. Dado que as
domesticadas gripes estacionais de tipo “A” matam nada menos do
que um milhão de pessoas ao ano, mesmo um modesto incremento de
virulência, poderia produzir uma carnificina equivalente a uma
guerra importante.
Uma de suas primeiras vítimas foi a fé consoladora, predicada
pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na possibilidade de
conter as pandemias com respostas imediatas das burocracias
sanitárias e independentemente da qualidade da saúde pública
local. Desde as primeiras mortes causadas pelo H5N1 em 1997, em
Hong Kong, a OMS, com o apoio da maioria das administrações
nacionais de saúde, promoveu uma estratégia centrada na
identificação e isolamento de uma cepa pandêmica em seu raio
local de eclosão, seguida de uma massiva administração de
antivirais e, se disponíveis, vacinas para a população.
Uma legião de céticos criticou esse enfoque de contrainsurgência
viral, assinalando que os micróbios podem agora voar ao redor do
mundo – quase literalmente no caso da gripe aviária – muito mais
rapidamente do que a OMS ou os funcionários locais podem reagir
ao foco inicial.
Esses especialistas observaram também o caráter
primitivo, e às vezes inexistente, da vigilância da interface
entre as enfermidades humanas e as animais. Mas o mito de uma
intervenção audaciosa, preventiva (e barata) contra a gripe
aviária resultou valiosíssimo para a causa dos países ricos que,
como os Estados Unidos e a Inglaterra, preferem investir em suas
próprias linhas Maginot biológicas, ao invés de incrementar
drasticamente a ajuda às frentes epidêmicas avançadas de ultra
mar.
Tampouco teve preço esse mito para as grandes
transnacionais farmacêuticas, envolvidas em uma guerra sem
quartel com as exigências dos países em desenvolvimento
empenhados em exigir a produção pública de antivirais genéricos
fundamentais como o Tamiflu, patenteado pela Roche.
A versão da OMS e dos centros de controle de enfermidades, que
já trabalha com a hipótese de uma pandemia, sem maior
necessidade de novos investimentos massivos em vigilância
sanitária, infraestrutura científica e reguladora, saúde pública
básica e acesso global a medicamentos vitais, será agora
decisivamente posta a prova pela gripe suína e talvez
averigüemos que pertence à mesma categoria de gestão de risco
que os títulos e obrigações de Madoff. Não é tão difícil que
fracasse o sistema de alertas levando em conta que ele
simplesmente não existe. Nem sequer na América do Norte e na
União Européia.
Não chega a ser surpreendente que o México careça tanto de
capacidade como de vontade política para administrar
enfermidades avícolas ou pecuárias, pois a situação só é um
pouco melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância se desfaz
em um infeliz mosaico de jurisdições estatais e as grandes
empresas pecuárias enfrentam as regras sanitárias com o mesmo
desprezo com que tratam os trabalhadores e os animais.
Analogamente, uma década inteira de advertências dos cientistas
fracassou em garantir transferências de sofisticadas tecnologias
virais experimentais aos países situados nas rotas pandêmicas
mais prováveis. O México conta com especialistas sanitários de
reputação mundial, mas tem que enviar as amostras a um
laboratório de Winnipeg para decifrar o genoma do vírus. Assim
se perdeu toda uma semana.
Mas ninguém ficou menos alerta que as autoridades de controle de
enfermidades em Atlanta. Segundo o Washington Post, o CDC
(Centro de Controle de Doenças) só percebeu o problema seis dias
depois de o México ter começado a impor medidas de urgência. Não
há desculpas para justificar esse atraso. O paradoxal desta
gripe suína é que, mesmo que totalmente inesperada, tenha sido
prognosticada com grande precisão. Há seis anos, a revista
Science publicou um artigo importante mostrando que “após
anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte
tinha dado um salto evolutivo vertiginoso”.
Desde sua identificação durante a Grande Depressão, o vírus H1N1
da gripe suína só havia experimentado uma ligeira mudança de seu
genoma original. Em 1998, uma variedade muito patógena começou a
dizimar porcas em uma granja da Carolina do Norte, e começaram a
surgir novas e mais virulentas versões ano após ano, incluindo
uma variante do H1N1 que continha os genes do H3N2 (causador da
outra gripe de tipo A com capacidade de contágio entre humanos).
Os cientistas entrevistados pela Science mostravam-se
preocupados com a possibilidade de que um desses híbridos
pudesse se transformar em um vírus de gripe humana – acredita-se
que as pandemias de 1957 e de 1968 foram causadas por uma
mistura de genes aviários e humanos forjada no interior de
organismos de porcos – e defendiam a criação urgente de um
sistema oficial de vigilância para a gripe suína: advertência,
cabe dizer, que encontrou ouvidos surdos em Washington, que
achava mais importante então despejar bilhões de dólares no
sumidouro das fantasias bioterroristas.
O que provocou tal aceleração na evolução da gripe suína? Há
muito que os estudiosos dos vírus estão convencidos que o
sistema de agricultura intensiva da China meridional é o
principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional
como do episódico intercâmbio genômico.
Mas a industrialização
empresarial da produção pecuária rompeu o monopólio natural da
China na evolução da gripe. O setor pecuário transformou-se nas
últimas décadas em algo que se parece mais com a indústria
petroquímica do que com a feliz granja familiar pintada nos
livros escolares.
Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de
porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65
milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso
significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos
fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante,
prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um
raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas
imunológicos muito debilitados.
No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center
publicou um informe sobre a “produção animal em granjas
industriais”, onde se destacava o agudo perigo de que “a
contínua circulação de vírus (...) característica de enormes
aviários ou rebanhos aumentasse as oportunidades de aparição de
novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A
comissão alertou também que o uso promíscuo de antibióticos nas
criações de suínos – mais barato que em ambientes humanos –
estava propiciando o surgimento de infecções de estafilococos
resistentes, enquanto que os resíduos dessas criações geravam
cepas de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que
matou um bilhão de peixes nos estuários da Carolina do Norte e
contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhora na ecologia deste novo agente patógeno teria
que enfrentar-se com o monstruoso poder dos grandes
conglomerados empresariais avícolas e pecuários, como Smithfield
Farms (suíno e gado) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma
obstrução sistemática de suas investigações por parte das
grandes empresas, incluídas algumas nada recatadas ameaças de
suprimir o financiamento de pesquisadores que cooperaram com a
investigação.
Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências
políticas. Assim como a gigante avícola Charoen Pokphand,
sediada em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações
sobre seu papel na propagação da gripe aviária no sudeste
asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do vírus
da gripe suína bata de frente contra a pétrea muralha da
indústria do porco.
Isso não quer dizer que nunca será encontrada uma acusadora
pistola fumegante: já corre o rumor na imprensa mexicana de um
epicentro da gripe situado em torno de uma gigantesca filial da
Smithfield no estado de Vera Cruz. Mas o mais importante –
sobretudo pela persistente ameaça do vírus H5N1 – é a floresta,
não as árvores: a fracassada estratégia antipandêmica da OMS, a
progressiva deterioração da saúde pública mundial, a mordaça
aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a
medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção
pecuária industrializada e ecologicamente bagunçada.

Mike
Davis é professor no departamento de História da Universidade da
Califórnia (UCI), em Irvine, e um especialista nas relações
entre urbanismo e meio ambiente. Ex-caminhoneiro, ex-açougueiro
e ex-militante estudantil, Davis é colaborador das revistas New
Left Review e The Nation, e autor de vários livros, entre eles
Ecologia do Medo, Holocaustos coloniais, O monstro bate a nossa
porta (editora Record), e Cidade de quartzo: escavando o futuro
em Los Angeles (Boitempo) Também é membro do Conselho Editorial
de Sin Permiso.
Artigo publicado originalmente no
The Guardian
(27/04/2009). Publicado também, em espanhol, no Sin Permiso.
Tradução: Katarina
Peixoto
Fonte: Carta
Maior - www.cartamaior.com.br