A Amazônia grita socorro

Moises Diniz, 39 anos (foto), neto de índios Ashaninkas, ex Irmão Marista, formado em pedagogia é deputado estadual do PCdoB no Acre.

A destruição da Amazônia tomou ares de bestialidade. A cada ano, no período do verão, o inferno ocupa o seu lugar. Depois, com as primeiras chuvas, é como se todos tivessem bebido do Lete, o rio da morte. Ninguém lembra do sofrimento e das brutais conseqüências do fogo.

Somente milhões de consciências, daqui e de outros lugares, para barrar as bestas da destruição e novas mortes como a de Francisco Anselmo.

Estamos convencidos de que dá para equacionar a defesa da Amazônia e a luta por sua soberania. Só não podemos deixar para cuidar da Amazônia, depois da sua destruição. Então, a soberania se dará sobre um território devastado, sem vida e sem valor.

Carta ao governador do Mato Grosso do Sul

Senhor Governador,

O Brasil inteiro já sabe que Francisco Anselmo de Barros [1] morreu por suicídio. Um suicídio diferente, mais doloroso, quando o ser humano ateia fogo ao próprio corpo. Um corte dos pulsos ou um tiro na cabeça, uma dose de veneno ou uma corda amarrada ao pescoço. Francelmo optou pelo suicídio mais doloroso.

Francelmo era contra o projeto 170/05, do governo do Mato Grosso do Sul, que vai permitir a instalação de usinas de álcool na Bacia do Alto Paraguai, no Pantanal. A proposta esbarra na resolução 001/85 do Conama, que suspende a concessão de licenças ambientais para usinas nas bacias que se ligam ao Pantanal. O mesmo projeto fere ainda a Lei Nacional de Recursos Hídricos (nº. 9.433/97).

Francelmo não se suicidou por causa de dívidas ou porque seu corpo abrigava uma doença incurável. Francelmo se suicidou por amor. Mas, como se fosse um profeta, ele não tocava com os dedos a sua paixão. Francelmo se apaixonou pelo futuro. Ele queria uma Amazônia cuidada, com os seus rios, a sua floresta e a sua beleza. Francelmo, na verdade, se apaixonou pelas futuras gerações, por nossos filhos.

Nós sabemos que o vosso governo defende a proposta sob o argumento de que existem tecnologias avançadas para evitar danos ao meio ambiente e que a medida permitirá a geração de emprego e renda para o Mato Grosso do Sul. Sua excelência, eleito por um partido de esquerda, sabe que excelente é o povo. E quando ele o elegeu, seu coração queria sustentabilidade e preservação.

Engraçado! Se não tivesse sido letal! O vosso governo, eleito pela esquerda, quer mudar uma lei ambiental aprovada ainda nos governos militares. Quanta contradição. É sempre a mesma estória. Gerar empregos e renda. Empregos para quem? Renda para quem? A que custo?

Foi o que disseram também as petrolíferas quando tentaram extrair petróleo nas regiões geladas. Foi o que disseram os madeireiros de Pedro Álvares Cabral. Foi o que disseram os governantes das capitanias hereditárias.

Muitos afirmam a insensatez de Francelmo. As petrolíferas também chamavam de insensatos os esquimós que defendiam o ecossistema gelado e a preservação do seu lugar. Insensatos foram também os povos da floresta do Acre? Insensato foi Chico Mendes?

É insensato quem entrega a própria vida a favor de uma causa? Se Jesus de Nazaré tivesse sido crucificado em defesa do meio ambiente, o agronegócio o chamaria de insensato. Insensata é a morte de crianças e idosos todos os anos na Amazônia, por causa da fumaça e da fuligem do agronegócio.

O dióxido de carbono não é elemento da natureza. É produto da tecnologia sem amor aos semelhantes. O dióxido de carbono é a digital do agronegócio. Uma digital que mata e faz do futuro uma variável sem cor e sem ar. A nossa estrutura aeróbica não permite respirar dióxido de carbono. Nós não vivemos em Marte. Nós não podemos respirar gás metano. Nós precisamos de oxigênio.

A morte do ambientalista Francelmo é o primeiro sinal. Uma morte violenta. Outras mortes, sem o impacto do suicídio, vêm ocorrendo na Amazônia. Todos os anos, dezenas de crianças morrem nos hospitais amazônicos, junto a idosos, em decorrência das malditas queimadas sem nenhum controle.

Os ambientalistas alertam para o inferno que está se conformando na Amazônia. Nesse ano, aqui no Acre, vivemos dias de medo e de terror, quando centenas de crianças e idosos foram internadas nos hospitais, com problemas respiratórios. A fumaça e a fuligem das queimadas castigaram a população acreana por semanas consecutivas.

Estamos nos aproximando da perigosa fronteira que nos separa de um mundo que morre. A morte de nossos rios e de nossas florestas não sensibilizou nossos governantes e muito menos as nossas elites econômicas. A morte de peixes, de aves e de animais silvestres é música suave nos ouvidos do agronegócio.

Assusta-nos descobrir que a morte de crianças e de idosos sensibiliza tanto quanto a morte de peixes, de aves e de animais silvestres. O capital ri e segue adiante.

Como disse antes, é o primeiro sinal. A morte de Francelmo é um sinal poderoso de que os entes da floresta vão se levantar contra os criminosos. Nesse instante de dor, todos somos entes da floresta.

A morte de Francelmo não ficará impune! Como assim? Quem pagará a morte de Francelmo? Quem são os culpados? Aqui no Acre, nós procuramos e encontramos o culpado pela morte de Chico Mendes. Esse foi o nosso erro: não compreendemos que havia outros criminosos. Darly Alves até já voltou a ser cidadão. Mas, desgraçadamente, a Amazônia continua ardendo em chamas.

Francelmo é uma vítima diferente. Não dá para colocar na cadeia todos os mandantes e todos os jagunços que o mataram. Os barões da soja, do algodão, do gado e da madeira. Os novos donos da Amazônia, que não sentem, sequer, o cheiro das folhas úmidas, o néctar das flores. Eles não sentem nada, nem remorso pela morte de crianças.

Para eles, Francelmo é mais um insensato. Eles dizem: ‘que me importa o ar podre das ruas, a fumaça, a fuligem? Eu durmo em mansões com ar condicionado e trafego em carrões. Tenho clínica particular e médico de plantão”.

Eles fazem isso desde que a vida permitiu a posse das riquezas humanas. Para eles, isso é normal. Não é normal, todavia, governante de esquerda se submeter aos seus caprichos.

Nós viemos fazer um apelo à consciência humanista de vossa excelência. Viemos pedir em nome dos rios que estão morrendo na Amazônia, dos milhares de plantas destruídas, que podem vir a ser a cura de tantas doenças. Pedimos em nome da floresta que não pode gritar, dos peixes e dos insetos indefesos.

Pedimos em nome das crianças amazônicas que morrem, todos os anos, dos idosos e das mulheres grávidas. Pedimos uma trégua entre os governantes, que têm força e poder, e a frágil floresta, seus rios, aves, plantas, peixes, animais e insetos.

Não é possível geral empregos e renda de outro jeito? Não é possível gerar vida para os homens e mulheres da Amazônia sem destruir as fontes de vida do presente e do futuro? Nós acreditamos que sim.

Nós pedimos em nome da vida. Não permita que seja em vão o sacrifício desse ambientalista de cabelos grisalhos. Ninguém faz proselitismo com a própria vida. Francelmo entregou a vida aos igarapés que estão secando, aos pássaros que morrem asfixiados, aos peixes, ao oxigênio que nos alimenta e se torna escasso.

Francelmo inaugurou, com a imolação da própria vida, uma nova fase na Amazônia. Passeatas, greves, ocupações de prédios públicos, vigílias e greves de fome. O povo amazônico vai se erguer em defesa da sua terra, da sua floresta, dos seus rios. De pé, exigiremos respeito e cuidados com o nosso presente, com a nossa sobrevivência como espécie e com o nosso futuro.

Rio Branco – Acre, 15 de novembro de 2005