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Monocultura da cana ameaça sítios arqueológicos no Acre
São Paulo, março de 2.008 - A expansão de lavouras de cana-de-açúcar no interior do Acre para a produção de álcool combustível ameaça sítios arqueológicos de até 2.500 anos descobertos com o desmatamento da floresta amazônica. Alguns dos chamados geoglifos estão sendo destruídos antes mesmo de serem estudados. Compostos de desenhos geométricos gigantes, esses sítios têm a forma de quadrados, círculos, quadrados dentro de círculos e círculos dentro de quadrados. Já foram descobertos um octógono e dois círculos que formam uma espécie de boneco, com cabeça e tronco. Embora os primeiros geoglifos tenham sido descobertos há 30 anos, eles jamais foram estudados sistematicamente nem protegidos pelo poder público. Assim, à medida que a floresta ia sendo derrubada a partir do entorno da capital, Rio Branco, os sítios ficaram vulneráveis à ação humana. Abertura de estradas, pastos, terraplenagens, assentamentos, torres de energia elétrica e atividades agrícolas são algumas ações que provocam a destruição total ou parcial dos geoglifos, que, por causa do tamanho, só podem ser vistos do alto. No chão, suas linhas são valas comuns, a maioria coberta por vegetação rasteira. A mais nova ameaça é o plantio de cana-de-açúcar em terras desmatadas do município de Capixaba, a 60 km de Rio Branco. Já há 1.800 hectares plantados. O plano de expansão do empreendimento Usina Álcool Verde (95% de capital privado e 5% do governo do Acre) prevê 39,5 mil hectares até 2015, sempre em terrenos onde não há mais floresta. Só nessa área há nove geoglifos mapeados.
Em outubro, o
Ministério Público do Estado do Acre suspendeu a licença ambiental da usina, na
tentativa de preservar os sítios arqueológicos. A Álcool Verde está com seu
processo de expansão suspenso até que seja feito por especialistas um estudo do
impacto ambiental da lavoura canavieira nas áreas onde estão os geoglifos. O Departamento de Patrimônio Histórico do Acre acaba de concluir um plano emergencial de preservação dos geoglifos na rota da cana. A chefe do órgão, Suely Melo, diz que a proposta é cercar os nove geoglifos já descobertos com "uma zona de amortecimento" de 1 km de diâmetro, na qual não se plantaria cana-de-açúcar. A direção da usina anunciou que vai acatar o planejamento do Patrimônio Histórico acreano, embora anteveja prejuízos com a supressão de áreas que estavam destinadas ao plantio de cana-de-açúcar. Para o gerente administrativo e financeiro da Álcool Verde, Elânio Pereira da Silva, a delimitação de 1 km de proteção em volta dos geoglifos é exagerada. Pereira da Silva disse que a empresa está realizando um mapeamento próprio a fim de averiguar se há mais geoglifos e sítios arqueológicos em sua área de expansão. De acordo com ele, por determinação do Ministério Público, não está havendo novos plantios, mas o beneficiamento da produção plantada prossegue. Pesquisadora de geoglifos, a geógrafa Míriam Bueno, do Laboratório de Geoprocessamento da Ufac (Universidade Federal do Acre), diz que não é possível saber quantos desenhos já foram destruídos desde as primeiras descobertas, em 1977. "Um proprietário rural se depara com aquela vala, não faz idéia do que é, passa o trator por cima, usa a vala, de uns dois metros de profundidade, para acumular água, bota o gado para pastar ali em cima. Isso não dá para medir", disse.
O Ministério Público Federal no Acre enviou ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) recomendação para que, até o fim deste ano, dê início ao processo de tombamento dos geoglifos acreanos. Se isso não ocorrer, o órgão federal será denunciado à Justiça. O procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes afirmou à Folha que, se a recomendação não for acatada pelo Iphan nos próximos dias, em janeiro dará entrada no Judiciário uma ação civil pública contra o órgão. Responsável pelas ações relacionadas ao ambiente do Ministério Público do Estado do Acre, a promotora Meri Cristina Amaral também ameaça recorrer à Justiça pela preservação dos geoglifos. Foi ela quem suspendeu a licença ambiental dada pelo governo do Acre à usina Álcool Verde. A promotora se manifestou a favor de uma ação civil pública conjunta com a Procuradoria da República. "Provavelmente a ação civil pública será contra as entidades que estejam negligenciando os cuidados com os geoglifos, nas três esferas [federal, estadual e municipal], além dos particulares", afirmou ela, acrescentando que o licenciamento do governo acreano para o plantio de cana-de-açúcar não aludia à existência do geoglifos na área. Para o procurador, os órgãos públicos já sabem onde estão os geoglifos e precisam atuar a fim de protegê-los da destruição. Ele defendeu o tombamento desses sítios arqueológicos, como forma de mais tarde virem a ser reconhecidos como patrimônio da humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). O chefe da regional do Iphan no Acre, Fernando Figali, disse que o tombamento ainda vai demorar porque o órgão não tem a localização exata de todos os geoglifos. Essa seria uma informação fundamental para que os devidos registros possam ser feitos. "Estamos identificando os sítios ao longo dos municípios nos eixos da BR-317 e da BR-364. Vamos instruir o processo no sentido do tombamento", disse Figali, que reconhece haver problemas em relação ao plantio de cana-de-açúcar. A cultura, crescente na região, estaria mesmo competindo com os sítios arqueológicos. "Esse empreendimento está sob o risco de perder sua licença", afirmou ele, para quem, mesmo sem tombamento, sítios arqueológicos como os geoglifos devem, de acordo com a legislação brasileira, ser mantidos sob preservação. (ST)
O governo do Acre tem planos de transformar os geoglifos numa espécie de marca turística do Estado. Na semana passada, começaram a ser instaladas na BR-317 placas alusivas à presença das formações geométricas nas proximidades. A idéia é que o desenho de geoglifo seja a logomarca oficial do Estado. Muitos dos 140 geoglifos já listados estão em fazendas às margens da rodovia, no trecho entre Rio Branco e a cidade de Porto Acre, na divisa com o Amazonas. Um sobrevôo na região mostra que a estrada pavimentada corta geoglifos pelo meio ou em um dos vértices. Outros são atravessados por estradas de terra ou viraram campo de pasto. Há ainda propriedades que se estabeleceram dentro dos sítios. Mesmo com a destruição, o Estado investe na divulgação turística das formações, seguindo exemplo do Peru, onde na região do deserto de Nazca ficam os geoglifos mais conhecidos do mundo, em forma de figuras geométricas e animais. A Secretaria Estadual de Turismo inicia em janeiro o processo de licitação para a construção de uma torre de 23 metros na BR-317, para a observação de dois geoglifos.
O
secretário Cassiano Marques diz que pretende convencer os fazendeiros a cercar e
proteger os sítios, para que possam ser estudados e, depois, abertos à
visitação.
O paleontólogo Alceu Ranzi, da Ufac (Universidade Federal do Acre), afirma que os canaviais representam ameaça aos geoglifos, mas que existe a possibilidade de um convívio harmonioso entre a agricultura e os sítios arqueológicos. Ranzi participou como estagiário da equipe que em 1977 localizou as primeiras formações geométricas, na área que hoje pertence à Usina Álcool Verde. "Toda e qualquer agricultura com maquinário pesado -arados, grades, tratores- tem o potencial de colocar em risco os geoglifos", diz. "A delimitação dos geoglifos em área de plantio de cana, para evitar o acesso de tratores, deverá ser uma das primeiras ações a serem executada", continua. Segundo ele, há espaço no Acre para o desenvolvimento da agricultura sem danificar os sítios. "Cada geoglifo é único e, se destruído, será uma parte do acervo cultural do Acre e da humanidade que ficará empobrecida", afirma. Já há 140 geoglifos mapeados na região oriental do Acre, principalmente nos corredores da BR-317, no trecho entre Rio Branco e a divisa com o Amazonas, e da BR-364, entre a capital e a fronteira com a Bolívia. Para Ranzi, novas pesquisas devem desvendar algo sobre a origem dos geoglifos. As universidades de Turku e Helsinque, na Finlândia, mantêm convênio de cooperação científica com a Ufac. Um projeto do Museu Emílio Goeldi (Pará) também é financiado pelo país nórdico. Amostras de solo de cinco geoglifos foram levadas para a Finlândia, onde estão sendo datadas. Acredita-se que, em média, os sítios tenham cerca de mil anos. Já há indicativos de que os mais antigos tenham até 2.500 anos e os mais recentes, 800 anos. Não se sabe que cultura indígena traçou os desenhos. "Foi um trabalho humano. É obra de gente. Agora, por quê? Quando? Quem? São pessoas desconhecidas, que se perderam no tempo, no Brasil, na América do Sul. É algo bem amazônico, uma cultura de terras baixas." Sua função também é desconhecida. Alguns arqueólogos sugeriram que se tratasse de vestígios de aldeias. Outra hipótese é de que os desenhos sejam símbolos vinculados a rituais religiosos dos antigos acreanos. (ST) Fonte: Folha de São Paulo, Sérgio Torres, enviado especial a Rio Branco (AC)
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