No MS, em
três anos 270 mil hectares viram carvão. Valor equivale a duas vezes o
território da cidade de SP em matas do Pantanal
Estimativa foi feita pelo Ibama; para
ambientalista, produção de carvão vegetal na região serve para bancar a abertura
de mais pastos

Brasília, 05 de abril
de 2.010 - A produção de carvão vegetal para a indústria siderúrgica fez
desaparecer nos últimos três anos cerca de 270 mil hectares de matas nativas do
Pantanal de Mato Grosso do Sul, o que equivale a duas vezes o território da
cidade de São Paulo.
A estimativa foi feita pelo Ibama
no Estado e levou em conta a demanda utilizada pelas indústrias no período e as
informações sobre movimentação de cargas contidas nas guias do DOF (Documento de
Origem Florestal).
"O avanço das carvoarias sobre as
matas nativas, legalmente ou não, é uma séria ameaça à sobrevivência do
Pantanal", afirma o superintendente do Ibama-MS, David Lourenço.
Entre 2007 e 2009, segundo o
Ibama, Mato Grosso do Sul movimentou 8,6 milhões de metros cúbicos de carvão
vegetal -a conta inclui o carvão importado do Paraguai. O auge foi o ano de
2007, com 4,5 milhões de metros cúbicos.
Em 2009, diz o Ibama, houve queda
significativa na produção: 1,2 milhão de metros cúbicos. O órgão atribui o
resultado à crise internacional e ao aumento na fiscalização.
No período, diz Lourenço, a
produção derivada de florestas plantadas representou "praticamente nada" em
relação à demanda da indústria. "Do produzido, 99% se dá por meio de lenha de
floresta nativa. Não temos dúvida em relação a isso."
Cada 80 metros cúbicos de lenha
nativa rende, em média, 40 metros de carvão. A maior parte dessa madeira é
retirada da região do planalto pantaneiro, afirma o superintendente.
"Antes a produção se concentrava
no oeste do Estado. Mas o enfraquecimento gradativo do cerrado por lá levou a
uma migração para o planalto pantaneiro, onde temos 47% de matas nativas
preservadas."
Para Luiz Benatti, chefe de
proteção ambiental do Ibama no Estado, as indústrias carvoeira e siderúrgica são
hoje duas das principais "indutoras do desmatamento" do cerrado.
"A carvoarias atuam diretamente.
E as siderúrgicas só querem saber de colocar mais carvão para dentro da
indústria, sem se importar com a origem e as condições em que foi produzido",
afirma.
O ambientalista Alcides Faria,
diretor-executivo da ONG sul-mato-grossense Ecoa (Ecologia e Ação), diz que até
mesmo as áreas da planície pantaneira já são alvo das carvoarias.
"Entre os
impactos possíveis estão a erosão e o assoreamento dos rios", diz Faria.
Para fazer pasto
De acordo com ele, a transformação de matas nativas em carvão é hoje uma opção
rentável para a ampliação de áreas para a pecuária. "Muitos fazendeiros usam as
natas nativas de suas propriedades para financiar, por meio da produção de
carvão, a abertura de novas pastagens", afirma.
O processo
segue o mesmo rumo, diz o ambientalista, nas regiões pantaneiras da Bolívia e do
Paraguai, que hoje também são grandes produtoras de carvão de origem nativa. "Há
uma nítida expansão dessas atividades por todo o bioma."
Fonte: Rodrigo Vargas, da Agência Folha de Cuiabá (MT)