CIMI lamenta o falecimento de
Dom Luciano Mendes de Almeida, um Bispo de muitas causas
Brasília, agosto de 2.006 - Foi
com profunda tristeza que o Conselho Indigenista Missionário recebeu, na manhã
desta segunda-feira, a notícia do falecimento de Dom Luciano Mendes de Almeida,
aos 75 anos, de falência múltipla dos órgãos, após mais de duas semanas de
internação.
Nascido no Rio de Janeiro, ordenado em Roma, Dom Luciano teve intensa atuação
com moradores em situação de rua e na Pastoral do Menor, da qual foi fundador.
Lembramos com carinho especial de quando foi bispo auxiliar da diocese de São
Paulo.
Dom Luciano tinha as portas abertas de sua residência aos moradores de rua da
Zona Leste da cidade, tanto que saía para conversar com eles madrugada adentro,
caminhando na praça, escutando suas dores e esperanças, como um verdadeiro e
fiel amigo. Esses homens e mulheres, que sofriam da exclusão extrema, sabiam que
podiam contar com ele a qualquer hora do dia ou da noite.
Cidadão do mundo, D.Luciano sofreu muito com o assassinato de D. Oscar Arnulfo
Romero, Arcebispo de San Salvador, El Salvador, pelo esquadrão da morte daquele
país. Presente em seus funerais, em março de 1980, D.Luciano foi testemunha do
massacre que esse mesmo esquadrão fez, matando pessoas do povo, incluindo
mulheres e idosos, que ali estavam. Essa terrível experiência o marcaria por
toda a vida, fazendo dele um aliado incondicional das lutas pelos direitos
humanos na América Latina.
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil do Brasil (CNBB) entre
1987 e 1994, Dom Luciano teve atuação decisiva em todo o processo da
Constituinte, particularmente na defesa dos direitos dos povos indígenas. Também
atuou na defesa do Cimi das acusações do jornal O Estado de S.Paulo. Em 1987,
para influenciar contra os direitos indígenas na Constituinte, o jornal publicou
“reportagens”, eivadas de calúnias e mentiras, sobre a suposta atuação de
missões religiosas como fachada de interesses de mineradoras estrangeiras. Após
seis dias de matérias que acusavam diretamente o Cimi, e através da atuação da
CNBB, o jornal foi obrigado pela Justiça a publicar o direito de resposta da
entidade.
Durante homenagem que recebeu na Câmara dos Deputados, em 2005, com uma fala
tranqüila e pausada, Dom Luciano afirmou que encontrou nas causas populares o
sentido para aquela solenidade. “Estava pensando no sentido do que estamos aqui
fazendo. E eu vi são as causas que importam: terra, trabalho, as populações
indígenas, os quilombolas”, disse o bispo.“Neste momento, sou alguém que ajuda
para que estas causas estejam presentes nesta casa”.
D.Luciano Mendes de Almeida ajudou, sim. Mas, muito além disso, ajudou para que
todas as causas populares estivessem presentes na história do Brasil, com o
merecido reconhecimento e dignidade. Se o tempo em que vivemos possui sinais
alentadores, de conquistas e esperanças, muito devemos a ele, com seu infinito
amor e paciência de escutar as dores e esperanças do povo madrugada adentro - e
de ser seu mais fiel amigo.
Cimi – Conselho Indigenista Missionário
