Nuvem gigante
sobre a Ásia mascara efeitos do aquecimento
Mas camada de
fuligem sobre a Ásia multiplica mortes por problemas pulmonares e prejudica a
agricultura
Pequim, novembro
de 2.008 - Uma nuvem de 3 quilômetros de espessura formada por fuligem e outros
poluentes está escurecendo grandes cidades da Ásia, matando milhares de pessoas
e prejudicando a agricultura, mas ao mesmo tempo protege a região dos piores
efeitos do aquecimento global, informou ontem a Organização das Nações Unidas
(ONU). A imensa coluna de fumaça formada por emissões de fábricas e carros e
incêndios contém partículas que refletem os raios do Sol, atenuando o efeito
estufa.
“Uma das conseqüências da nuvem marrom tem sido mascarar a natureza real do
aquecimento global”, explicou Achim Steiner, chefe do Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente. As declarações foram dadas no lançamento, em Pequim, de um
novo relatório sobre o fenômeno, resultado de um estudo que durou sete anos.
O volume de luz que chega à Terra através da nuvem caiu cerca de 25% nas áreas
mais afetadas. Se o véu marrom se dispersar, as temperaturas globais podem subir
até 2°C.
Ao mesmo tempo que a sufocante nuvem de poluentes regula a temperatura, a
poluição acelera o aquecimento em algumas das áreas mais vulneráveis. O complexo
impacto da nuvem, que tende a esfriar áreas próximas da superfície da Terra e
aquecer o ar em altitudes elevadas, estaria provocando o encurtamento da
temporada de monções na Índia e intensificando as enchentes ali e no sul da
China.
A fuligem também é depositada nas geleiras, um dos problemas que mais preocupam
ambientalistas e políticos, pois elas alimentam os maiores rios da Ásia e
fornecem água para bilhões de pessoas.
Segundo o relatório, cerca de 340 mil pessoas morreram prematuramente por causa
de problemas nos pulmões e no coração ligados ao fenômeno. Outras milhares
correm mais risco de desenvolver câncer.
Produção agrícola
Os cientistas estudam ainda o impacto do fenômeno na produção agrícola. Entre os
problemas esperados, conta-se uma diminuição das safras em razão de haver menos
energia para a fotossíntese e por causa de níveis elevados de concentração de
ozônio.
Como consolo, no entanto, o relatório aponta que, se o mundo parar de emitir as
partículas responsáveis pela formação da nuvem, o fenômeno desapareceria dentro
de semanas, ao contrário de muitos dos resistentes gases do efeito estufa.
Os ingredientes da nuvem não divergem muito daqueles encontrados na fumaça que
envolve muitas das grandes cidades do planeta, em particular as dos países em
desenvolvimento, como a Cidade do México.
Há nuvens marrons semelhantes sobre partes da Europa, da América do Norte, da
África e da bacia Amazônica. Os cientistas, porém, concentraram-se por enquanto
somente na nuvem asiática, que se estende da península Arábica ao Oceano
Pacífico.
Fonte: Estadão