O mundo
começou e acabará sem o homem
Gilberto
Dupas
São Paulo, novembro de 2.007 - Essa gravíssima advertência de Lévi-Strauss serve
como um grande alerta para o desastre ambiental decorrente das lógicas da
globalização e do consumismo.
Mas os que lideram o discurso hegemônico sobre a direção do que chamam "vetores
tecnológicos do progresso" tentam abafar as sirenes de alarme; somente alguns as
ouvem e muito poucos agem.
Martin Rees, presidente da Royal Society, lembra que em apenas um instante
minúsculo da história da Terra -os últimos cem anos- o padrão de desenvolvimento
que escolhemos começou a provocar devastadoras mudanças ambientais no fino e
delicado habitat da terra, ameaçando o futuro do homem.
Não temos espaço aqui para citar as inúmeras evidências científicas disponíveis,
as quais podem ser encontradas em detalhes no meu livro "O Mito do Progresso".
Fiquemos com algumas conclusões alarmantes.
A queima de petróleo, carvão e gás elevou a concentração de CO2 (dióxido de
carbono) na atmosfera de 280 ppm (partes por milhão) em 1860 para 365 ppm em
1990; é provável que atinja 700 ppm em 2100. Assim, os solos ficarão mais secos
e as fortes estiagens serão em maiores número e intensidade. A temperatura média
global pode subir até 6ºC nos próximos 100 anos. O gelo polar derreterá e poderá
elevar o nível dos oceanos em até 94 cm, o que exigiria a remoção de mais de 90
milhões de pessoas.
Na Europa e nos Estados Unidos, por volta de 50% dos lagos e rios estão
gravemente poluídos. De todos os ecossistemas mundiais, pelo menos 60% estão
sendo explorados de maneira não sustentável, em processo de degradação que pode
ser irreversível em 50 anos. A expansão agrícola de 1945 até 2004 foi superior à
soma dos séculos 18 e 19; a destruição ambiental resultante agrava o percentual
de plantas, mamíferos, aves e anfíbios em extinção; algumas dessas espécies nem
sequer foram catalogadas.
Para Robert May, "estamos queimando os livros antes de aprendermos a lê-los".
Propõe-se um esforço de emergência para recolher, congelar e armazenar amostras
da fauna completa de floresta tropical como uma espécie de seguro para o futuro.
O planeta também foi se tornando um imenso emissor de ondas eletromagnéticas,
produto das múltiplas transmissões de rádio, televisão, telefone celular e
radar, cujas conseqüências exatas sobre o meio ambiente e a saúde humana ainda
estão por ser determinadas.
No entanto, já se sabe que bastam seis horas pedalando em meio a tráfego intenso
para danos permanentes poderem ser causados aos vasos sangüíneos. A concentração
de espermatozóides no sêmen dos homens tem caído assustadoramente; as hipóteses
são consumo de produtos industrializados, estresse, poluição, medicamentos,
produtos contra queda de cabelo, exposição à radiação, agrotóxicos, produtos
químicos contidos em roupas, PCB -substância tóxica dos plásticos de embalagem-
e outras toxinas da vida moderna. "São coisas que as pessoas vão incorporando e
fazem um estrago tremendo nas mitocôndrias e no DNA", diz um cientista.
A revista científica "Human Reproduction" alerta para as relações entre aqueles
fatores de poluição e a má-formação dos fetos ou os abortos espontâneos. O
número de bebês prematuros cresceu 31% nos últimos 24 anos nos EUA e atinge um
em cada oito nascidos, segundo pesquisa da Universidade de Stanford.
Enquanto isso, os compromissos do Protocolo de Kyoto estão engavetados. Os EUA
produzem dez vezes mais CO2 per capta do que a média dos países em
desenvolvimento; e o seu Departamento de Energia anuncia recordes anuais desde
2005, quando já se havia atingido quase o dobro da média anual de 1990. O Canadá
aumentou suas emissões de gases em 57% no período 1990-2005. Os únicos índices
um pouco mais estáveis estão na União Européia.
Há, pois, fortes evidências de que a civilização está em xeque. Urge aos
governos e às instituições internacionais tomarem medidas preventivas drásticas
imediatas em nome dos óbvios interesses dos nossos descendentes. Mas, como
fazê-lo, se o modelo de acumulação que rege o capitalismo global exige contínuo
aumento de consumo e sucateamento de produtos, acelerando brutalmente o uso de
recursos naturais escassos? O dilema é ao mesmo tempo simples e brutal: ou
domamos o modelo ou envenenamos o planeta, sacrificando de vez a vida humana
saudável sobre a terra.