Obra do Madeira ameaça grupos indígenas isolados
Brasília, novembro de 2.008 - Há três semanas (outubro de 2.008), máquinas do
consórcio Madeira Energia iniciaram as obras para a construção da hidrelétrica
de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, um dos principais empreendimentos
do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Mas a
obra, orçada em cerca de R$10 bilhões e considerada essencial para se evitarem
apagões, pode esbarrar em um problema de cunho antropológico e até sofrer
atrasos. Relatório interno da Fundação Nacional do Índio (Funai) obtido pelo
GLOBO aponta referências a, pelo menos, cinco grupos de índios isolados na área
de abrangência da usina.
Um dos grupos estaria a apenas 14 quilômetros do canteiro central da
hidrelétrica. Eles viveriam numa área já considerada de uso restrito, chamada
Jacareúba Katawixi. Referências são indicações da existência de grupos indígenas
que nunca tiveram contato com não-índios. Pelo entendimento interno da Funai,
índios isolados não devem ser contatados, a menos que estejam sob risco de
morte. Experiências anteriores mostram que o encontro entre índios isolados e
não-índios é desastroso, devido ao choque cultural e à transmissão de doenças,
entre outros problemas.
- Se for constatada a presença dos índios, as obras não seguirão o calendário
deles (empresas do consórcio Madeira Energia, as principais sendo a Odebrecht e
a estatal federal Furnas) - afirmou Elias Bígio, coordenador-geral de Índios
Isolados da Funai.
A informação sobre referências de índios tão próximos do canteiro de obras
surpreendeu o gerente de Sustentabilidade do Madeira Energia, Ricardo Márcio,
encarregado de ajustar o empreendimento às exigências socioambientais. Márcio
disse que sabia das referências aos índios isolados e que o Madeira já se
comprometera a financiar as expedições para confirmar a presença deles. Mas ele
sustenta que a Funai nunca mencionou indícios da existência de índios em
Jacareúba Katawixi.
- Gostaria que a Funai nos formalizasse isso. Quatorze quilômetros não são nada.
Isso muda tudo - disse o executivo.
Brasil pode ser
condenado por crime, diz sertanista
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Sidney Possuelo, sertanista, ex-presidente da Funai |
O sertanista Sidney Possuelo, ex-presidente da Funai e um dos maiores
especialistas do país no assunto, é ainda mais incisivo. Para ele, é inaceitável
que a Funai tenha concordado com a liberação das obras antes mesmo de iniciar os
estudos de campo para checar a presença dos índios na região. Possuelo entende
que a construção da hidrelétrica deve ser suspensa imediatamente. Caso
contrário, o governo federal pode ser denunciado em tribunais internacionais por
um possível massacre de povos indefesos.
- O governo pode ser condenado em fóruns internacionais por ações imprevidentes
contra povos indígenas. Por isso, pesa grande responsabilidade para a Funai em
bater o pé e dizer: não tem canteiro de obras até que se verifique se os índios
existem.
As referências aos índios isolados constam no documento "Plano de Trabalho",
elaborado pelos servidores da Funai Ester Silveira, Antenor Vaz e Altair Algayer
em 14 de julho, um mês antes de Ibama e Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)
liberarem as obras. Pelo relatório, "os grupos isolados e as terras onde
habitam, passíveis de serem atingidos" pela usina, estão localizados às margens
esquerda e direita do Rio Madeira. Três grupos viveriam em Rondônia e outros
dois habitariam trechos da floresta no estado do Amazonas.
Entre estes grupos estariam cerca de 150 índios sirianós e um número não
calculado de índios uru weu wau wau. Sobre os demais grupos, a Funai diz nada
saber. Por falta de informações seguras, todos eles aparecem nos estudos
vinculados aos números 12, 45, 46 e 47. São as referências geográficas de onde
estariam vivendo esses índios. Um deles é associado à sigla "s/n", ou seja,
seria um grupo sobre o qual ainda não se tem idéia da localização.
- Existem referências de índios na terra Jareúba Katawixi. Essa terra está a 14
quilômetros do lugar onde vai ser construído o canteiro de obras. Essa área
sofrerá impacto direto. Mas a definição de áreas indígenas só pode ser feita
depois da conclusão dos estudos - argumentou Bígio, da Funai.
Em março deste ano, representantes da Funai e do Madeira acertaram que o
consórcio financiaria expedições para localizar, identificar e definir medidas
de proteção aos índios isolados. Esta seria uma das condicionantes para a
concessão da licença ambiental. Mas a promessa ainda não saiu do papel, e, para
a Funai, não há mais condições técnicas de iniciar as expedições neste ano.
Funai foi favorável ao
início das obras, afirma Ibama
Estudos dessa natureza demoram de dois a três anos. As expedições devem
localizar os índios, descobrir hábitos e costumes e, a partir daí, definir as
áreas de que necessitam para a sobrevivência. Cada grupo tem suas
peculiaridades.
- O Brasil está na base do "tudo ao mesmo tempo agora", tomando decisões
ligeiras premido por previsões catastróficas do tipo novos apagões, e
beneficiando empreiteiros - queixou-se o procurador regional (Rondônia) da
República, Alexandre Camanho.
A Aneel informou que concedeu licença a partir de relatório de impacto ambiental
favorável do Ibama. Em nota, o Ibama transfere à Funai a responsabilidade sobre
a questão indígena. Segundo o Ibama, a licença só foi assinada "após a
manifestação favorável daquela Fundação". No texto, acrescenta que "não houve
oposição por parte do órgão competente para a continuidade do processo, apenas
foi recomendada a implementação do plano por ele elaborado, que foi acatado".
Jailton de Carvalho (20/10, O Globo)
Nota: O governo brasileiro
enfrenta ainda a condenação pelo Tribunal Latino Americano das Águas, sediado na
Guatemala, depois de denúncia feita por entidades do GTA Rondônia.
Fonte: GTA
- Grupo de Trabalho Amazônico