O papel e os
impactos de sua produção no ambiente
São Paulo, abril de 2.006 - O impactos da produção do papel já são bem
conhecidos, e tão desastrosos que há anos a Europa tratou de "terceirizar" o
setor. É claro, para os países em desenvolvimento, onde a fragilidade das leis
ambientais, a carência por postos de trabalho e a necessidade de gerar divisas
acenaram, e ainda acenam, com boas-vindas para essa que é uma das mais
impactantes indústrias do planeta.
Para produzir 1 tonelada de papel são necessárias 2 a 3 toneladas de madeira,
uma grande quantidade de água (mais do que qualquer outra atividade industrial),
e muita energia (está em quinto lugar na lista das que mais consomem energia). O
uso de produtos químicos altamente tóxicos na separação e no branqueamento da
celulose também representa um sério risco para a saúde humana e para o meio
ambiente - comprometendo a qualidade da água, do solo e dos alimentos.
O alto consumo de papel e seus métodos de produção insustentáveis endossam o rol
das atividades humanas mais nocivas ao planeta. O consumo mundial cresceu mais
de seis vezes desde a metade do século XX, segundo dados do Worldwatch Institute,
podendo chegar a mais de 300 kg per capita ao ano em alguns países. E na esteira
do consumo, cresce também o volume de lixo, que é outro sério problema em todos
os centros urbanos.
Para contornar a situação, algumas saídas têm sido apontadas, como a utilização
de madeira de reflorestamento, para frear a derrubada nas poucas áreas
remanescentes de matas nativas, a redução do emprego de cloro nos processos de
fabricação e a reciclagem do papel. Porém, mesmo com essas medidas, e ao
contrário do que as indústrias procuram estampar nos rótulos de seus produtos,
ainda estamos muito longe de alcançar uma produção limpa e sustentável.
Deserto verde
Atualmente 100% da produção de papel e celulose no Brasil emprega matéria-prima
de áreas de reflorestamento, principalmente de eucalipto (65%) e pinus (31%).
Mas nem por isso podemos ficar tranqüilos. Segundo a consultora de meio ambiente
do Idec, Lisa Gunn, utilizar madeira de área reflorestada é sempre melhor do que
derrubar matas nativas, mas isso não quer dizer que o meio ambiente está
protegido. "Quando o reflorestamento é feito nos moldes de uma monocultura em
grande extensão de terras, não é sustentável porque causa impactos sociais e
ambientais, como pouca oferta de empregos e perda de biodiversidade."
De acordo com algumas pesquisas
científicas, a monocultura do eucalipto, por exemplo, consome tanta água que
pode afetar significativamente os recursos hídricos. Segundo Daniela Meirelles
Dias de Carvalho, geógrafa e técnica da Fase, uma organização não-governamental
que atua na área sócio-ambiental, só no norte do Espírito Santo já secaram mais
de 130 córregos depois que o eucalipto foi introduzido no estado.
Ainda segundo Daniela, a indústria de celulose chegou ao Espírito Santo na
década de 1960, quando se iniciou um rápido processo de devastação da Mata
Atlântica e expulsão de comunidades rurais. "A empresa Aracruz Celulose invadiu
áreas indígenas em processo de demarcação e expulsou índios tupiniquins e
guaranis de 40 aldeias. No norte do estado, a empresa ocupou terras quilombolas,
expulsando cerca de 10 mil famílias", afirma.
De acordo com a Fase, atualmente
restam apenas seis aldeias indígenas, que reivindicam 10.500 hectares
indevidamente apropriados pela empresa, e 1.500 famílias quilombolas. "Junto com
pequenos agricultores, essas comunidades, mesmo tendo resistido a pressões e
permanecido em suas terras, sofreram perdas enormes e hoje vivem ilhadas entre
eucaliptos, sujeitas às freqüentes aplicações de agrotóxicos", diz Daniela.
Depois da Aracruz, vieram outras empresas para a região, como a Suzano e a Bahia
Sul, que, segundo a geógrafa, ocupam as terras mais agricultáveis e áreas que
deveriam ser de conservação permanente. "Tudo com a conivência dos governos, que
atuam como facilitadores liberando plantios, autorizando o desvio de rios (como
o Rio Doce) para abastecer a fábrica e liberando recursos via BNDES para os
programas de expansão das empresas", critica a geógrafa.
A boa notícia é que a mobilização social na região vem crescendo e já obteve
vitórias significativas. Atualmente já são mais de 100 ONGs integrantes do
movimento Rede Alerta contra o Deserto Verde, como é denominada a monocultura do
eucalipto. Uma importante vitória foi ter conseguido impedir que a Aracruz
obtivesse o selo FSC (do Conselho de Manejo Florestal). Para obter a
certificação, a empresa precisa do aval das comunidades do entorno. "Mas, se
depender de nós, jamais vai conseguir", garante Daniela.
O preço da brancura
Matéria-prima básica da indústria do papel, a celulose é um material fibroso
presente na madeira e nos vegetais em geral. No processo de fabricação, primeiro
a madeira é descascada e picada em lascas (chamadas cavacos), depois é cozida
com produtos químicos, para separar a celulose da lignina e demais componentes
vegetais. O líquido resultante do cozimento, chamado licor negro, é armazenado
em lagoas de decantação, onde recebe tratamento antes de retornar aos corpos
d'água.
A etapa seguinte, e a mais crítica, é o branqueamento da celulose, um processo
que envolve várias lavagens para retirar impurezas e clarear a pasta que será
usada para fazer o papel. Até pouco tempo, o branqueamento era feito com cloro
elementar, que foi substituído pelo dióxido de cloro para minimizar a formação
de dioxinas (compostos organoclorados resultantes da associação de matéria
orgânica e cloro). Embora essa mudança tenha ajudado a reduzir a contaminação,
ela não elimina completamente as dioxinas. Esses compostos, classificados pela
EPA, a agência ambiental norte-americana, como o mais potente cancerígeno já
testado em laboratórios, também estão associados a várias doenças do sistema
endócrino, reprodutivo, nervoso e imunológico.
Mesmo com o tratamento de efluentes na fábrica, as dioxinas permanecem e são
lançadas nos rios, contaminando a água, o solo e conseqüentemente a vegetação e
os animais (inclusive os que são usados para consumo humano). No organismo dos
animais e do homem, as dioxinas têm efeito cumulativo, ou seja, não são
eliminadas e vão se armazenando nos tecidos gordurosos do corpo.
A Europa já aboliu completamente o cloro na fabricação do papel. Lá o
branqueamento é feito com oxigênio, peróxido de hidrogênio e ozônio, processo
conhecido como total chlorine free (TCF). Já nos Estados Unidos e no Brasil, e
em favor de interesses da indústria do cloro, o dióxido de cloro continua sendo
usado.
Ao negligenciar medidas de segurança, as indústrias de papel também ficam
vulneráveis a acidentes ambientais graves, como ocorreu há pouco mais de um ano
na Fábrica Cataguazes de Papel, em Cataguazes (MG). O rompimento de uma lagoa de
tratamento de efluentes provocou o derramamento de cerca de 1,2 bilhão de litros
de resíduos tóxicos no Córrego Cágados, que logo chegaram aos rios Pomba e
Paraíba do Sul. A contaminação atingiu oito municípios e deixou cerca de 600 mil
habitantes sem água. Com a morte dos peixes, pescadores e populações ribeirinhas
ficaram sem seu principal meio de subsistência.
Reciclagem
Reciclar papel e papelão não só ajuda a reduzir o volume de lixo como evita a
derrubada de árvores. No Brasil, apenas 37% do papel produzido vai para a
reciclagem. De todo o papel reciclado, 80% é destinado à confecção de
embalagens, 18% para papéis sanitários e apenas 2% para impressão.
O atual desafio é aumentar a produção e construir um mercado mais competitivo
para os reciclados. Porém, o setor esbarra na precariedade do sistema de coleta
seletiva ou na completa inexistência dele na maior parte do país.
Faltam também leis, a exemplo do que ocorre em alguns países europeus, que
responsabilizem os fabricantes e comerciantes pela coleta e reciclagem de
embalagens, jornais, revistas e outros materiais pós-consumo.
Outro ponto a observar é que a reciclagem também é uma indústria que consome
energia e polui. Por isso, se o que almejamos é uma produção sustentável, capaz
de garantir os recursos naturais necessários para a atual e as futuras gerações,
o melhor a fazer é reduzir o consumo e começar a exigir que as empresas adotem
medidas mais eficazes de proteção ambiental. Como consumidores, esse é o nosso
papel.
De acordo com a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), a produção
brasileira de celulose em 2002 foi de 8 milhões de toneladas, sendo que 30,4%
desse volume foi exportado (principalmente para a Europa, Ásia e América do
Norte. A produção de papel ficou em 7,7 milhões de toneladas, 13,4% para
exportação. Na última década, o setor ampliou as exportações de US$ 1 bilhão em
1990 para US$ 2,1 bilhões em 2002, mais de 100%. E para exportar ainda mais, até
2012 pretende investir US$ 4,4 bilhões e dobrar a área reflorestada, de 1,4
milhões para 2,6 milhões de hectares (86% de crescimento).
Sob o argumento de gerar divisas e criar postos de trabalho, a indústria do
papel não encontra dificuldades para obter financiamentos do BNDES. Entretanto,
o número de empregos não é exatamente um ponto forte do setor, que é altamente
mecanizado tanto na indústria como nas áreas de reflorestamento. A expansão do
setor, com objetivo de atender ao mercado externo, seria vista com mais cautela
se na balança comercial fossem pesados também os custos ambientais.
Para minimizar os danos,
consumidores precisam rever seus hábitos de consumo e exigir mudanças no modo de
produção.
Consumo sustentável
- Reduza o uso de papel (e de madeira) o máximo possível.
- Evite comprar produtos com excesso de embalagem.
- Ao imprimir ou escrever, utilize os dois lados do papel.
- Revise textos na tela do computador e só imprima se for realmente necessário.
- Dê preferência a produtos reciclados ou aqueles que trazem o selo de
certificação do FSC.
- Evite consumir papel cujo branqueamento seja feito com cloro ou hidróxido de
cloro. Ligue para o SAC das empresas e exija que elas adotem uma produção mais
limpa e com controle de efluentes.
- Use filtros, guardanapos e toalhas de pano em vez dos de papel.
- Recuse folhetos de propaganda que não sejam de seu interesse.
- Separe o lixo doméstico e doe os materiais recicláveis para as cooperativas de
catadores. Saiba que 80% do papel que consumimos é na forma de embalagens.
- Organize-se junto a outros consumidores para apoiar ações sócio-ambientais e
pressionar o governo a fiscalizar empresas, criar leis de proteção ambiental e
programas de incentivo à produção limpa.

Fonte:
IDEC