Luis Eduardo Cheida


I - Os pecados da carne


II - O contorcionista

Curitiba (PR), 25 de abril de 2.008 - A PeTA oferece 1 milhão de dólares a quem criar, em laboratório, carne com gosto e textura de carne natural de frango, até junho de 2012.

PeTA ou People for the Ethical Treatment of Animals (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais) é a maior organização mundial pelos direitos dos animais. Para seus 800.000 membros, animais não foram feitos para servir de comida, vestuário, cobaia, tração ou distração.

O prêmio, com gosto de desespero, pretende diminuir o sofrimento dos animais e reduzir os efeitos ambientais devastadores da indústria da carne.

Por sofrimento dos animais entende-se o esfolar raposas, ainda vivas, para a produção de casacos; enterrar gansos, deixando o pescoço de fora, despejando milho sem parar, através de um funil, até provocar esteatose hepática (engorduramento do fígado) para se fabricar o patê mais caro do planeta; seccionar as patas de cavalos e deixá-los esvair-se em sangue com o fim de obter-se carne mais enxuta; dilacerar o bico das aves de granja e espremê-las em espaço menor que uma folha de papel ofício, matando-as em um tempo 15 vezes menor do que se vivessem livremente; privar bezerros de esticar as pernas, após separá-los das mães, de sua alimentação natural, de sua liberdade, para abatê-los, com meses de vida, vendendo-os como vitela; dependurar em ganchos e dar choques elétricos em cães, ainda vivos, pois a adrenalina torna a carne mais saborosa...

A sinopse deste circo de horrores sado-masoquista ainda é a essência do resumo da síntese de até onde pode chegar a estupidez humana.

Por efeitos ambientais devastadores entende-se a produção de carne em escala, solapando os recursos naturais.

Produzir 450 gramas de bife de gado confinado gasta 2,26 Kg de grãos, 9.450 litros d'água, energia de 3,8 litros de gasolina e 16 Kg de solo erodido.

Os recursos fósseis são para o transporte, tratores, fertilizantes químicos e pesticidas: os animais já são quase subprodutos do petróleo.

Mas, contrariamente à produção de carne, produzir vegetais para consumo humano é, em geral, 5 vezes mais eficiente em termos energéticos do que criar gado no pasto; 20 vezes mais eficiente que criar galinhas e mais de 50 vezes mais eficiente que criar gado confinado. Se hoje ainda tem sentido fazer o contrário é porque a carne vale mais que o petróleo. Porém, a longo prazo, produzir carne com recursos fósseis não faz o mínimo sentido.

A utilização excessiva da terra para criação de gado resulta na perda de sua camada fértil. Por todo o globo, a terra, que é a base da produção de alimentos, está sendo rapidamente erodida. Os fazendeiros optam por métodos de produção de baixo custo que deixam o solo exposto e submetem terras fracas à produção intensiva levando-as à ruína. A principal
causa mortis das grandes civilizações foi o esgotamento do solo.

Na Amazônia, 90% dos criadores de gado abandonam as terras em menos de 8 anos. Na América Central, 25% das florestas foram derrubadas para darem lugar às fazendas de gado. Na América do Norte, 30% das terras são pastagens e 50% das terras cultivadas são de grãos para ração animal (só 2% são para frutas e verduras).

Lá, 80% da soja e 90% do milho são para o gado. No Brasil, 44% das terras cultivadas produz alimento para animais. No mundo, a cifra é 50%!

Florestas e animais criados para a carne competem pela mesma terra.

O apetite do mundo banca o agronegócio. E este paga mais para quem come do que para quem preserva ou recupera a floresta.

Fazer carne em escala industrial gera sofrimento aos animais e devastação ao ambiente. Não se devolve a vida a um pedaço de bife. Da mesma forma, o ambiente destruído jamais será o mesmo.

Embora nenhuma diferença faça 1 milhão de dólares no bolso do cientista que criar carne artificial a preços competitivos, se você refletir sobre os pecados da carne, fará toda a diferença.

O CONTORCIONISTA

Com o Recado da semana passada, "Os Pecados da Carne", o pau cantou para cima do lombo deste que vos fala. Algumas das manifestações:

- O autor confunde bem-estar animal com produção de alimentos e generaliza, perigosamente, os conceitos...

- Sou favorável às iniciativas da PeTA em relação ao bem-estar animal e sou contra qualquer tipo de crueldade com os animais, mas acho que misturar os assuntos e culpar a produção de carne não é uma boa saída.

- Segundo você, devemos todos nos tornar vegetarianos!

- Quem é a PeTA, grupelho que, com seus 800.000 membros, não representa 0,01% dos habitantes do planeta?

- Deveria estudar dados da FAO, conhecer hábitos de consumo, número de empregos gerados pela agricultura e produção animal. Está mal-informado. Entretanto, devemos provocar profundas discussões em nosso meio sobre produção animal com consciência ambiental e respeito ao bem-estar...

Tais manifestações vieram de gente que faz melhoramento animal, zootecnia, engenharia de alimento e outras atividades de respeito. Porém, também com muito respeito, quero fazer só duas perguntas:

Como é possível criar animais, em escala industrial, garantindo seu bem-estar, alimentação natural e liberdade, não lhes imputando castração, separação das mães, divisão artificial em grupos, marcação, transporte e outros tipos de sofrimento e dor?

Não vale responder que, em escala pequena é possível, porque isso não atende a imensa população. Carne de animais criados segundo os princípios do bem-estar animal seria iguaria para poucos de muitas posses. Também não vale o que Oliver Goldsmith, humanista do séc. XVIII, dizia sobre as pessoas: Elas sentem pena, mas comem o objeto de sua compaixão.

Como é possível ampliar o cultivo de grãos, para ração animal, por sobre áreas de florestas e áreas de alimentação humana, gerando maior devastação ambiental, e ainda menos alimentos, menos proteínas e menores perspectivas na resolução do problema da fome?

Não vale responder que 500 gramas de bife tem mais calorias que 500 gramas de feijão. Cada animal precisa comer para chegar ao peso do abate. Um bezerro pastando só capim, realmente, significa um ganho líquido de proteínas para os humanos. Mas, produzido em escala, o bezerro alimenta-se com comida que nós poderíamos comer. Para crescer, bater o coração, respirar e demais atividades, ele gasta calorias (energia). Seus ossos e outros tecidos, que não comemos, também são construídos com o que ele come. Depois de atendidas suas necessidades, só o que sobra é que se transforma em carne. E, pasme: um bezerro tem que comer 19 Kg de proteína na ração, para produzir menos de 1Kg de proteína para um ser humano. Dessa forma, recupera-se 5% daquilo que se investiu! Se metade das terras cultiváveis do planeta são para ração animal, e a população de famélicos não diminui, como estas coisas se justificam?

Este Recado não pretende dar receitas de conduta. É um espaço onde procuro instigar as pessoas a tomarem posição (sejam quais forem) sobre o que considero mais relevante: nossa sobrevivência.

Neste último, não critiquei a produção de animais e sim a produção industrial de animais e suas conseqüências de ordem moral e ambiental.

Pela qualidade dos interlocutores, considerei importante dar continuidade ao assunto. Contudo, um pedido: foquem o tema; não pratiquem contorcionismo pois, no final, bem pode acontecer, como diz a lenda:

- O contorcionista engoliu-se.

* Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Premiado pela ONU por seus projetos ambientais, foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.