A entrada dos carros de R$ 6 mil irá antecipar o agravamento do caos no trânsito nas grandes cidades do país

São Paulo setembro de 2.007 - O anúncio da entrada no Brasil dos carros "superpopulares", vindos da China e da Índia, irá antecipar o agravamento do "caos definitivo" do trânsito nas grandes cidades.

Essa é a visão de especialistas em engenharia de tráfego, para quem a idéia de se vender no Brasil carros que custam em seus países de origem valores entre R$ 5 mil e R$ 7 mil - preço de uma motocicleta - aliada à falta de uma política clara que priorize o transporte público, levará cidades como São Paulo a uma perda irreversível de produtividade econômica.

"A entrada massiva de veículos desse tipo e a falta de investimentos no transporte público significam acelerar em direção ao suícidio. Com esses veículos, agravariam-se as condições de circulação, indo na contramão de tudo o que se discute", diz Dario Lopes, professor de projeto urbano da Universidade Mackenzie.

O professor entende os projetos dos "superpopulares" como interessantes do ponto de vista industrial e econômico, mas condena o seu uso em larga escala. "É claro que em um sistema capitalista os empreendedores vão procurar nichos para aumentar os seus ganhos. Mas o poder público deve preservar o interesse geral, que está acima de qualquer outra coisa."

Hoje, o carro mais barato vendido no Brasil é o Uno Mille, da Fiat, pouco acima dos R$ 22 mil. A chinesa Cherry fabrica em seu país, o "QQ", ao preço final de R$ 7 mil. No começo de 2008 a fabricante indiana Tata pretende mostrar seu carrinho de baixo custo, que custará em torno de R$ 5 mil. Está nos planos da empresa trazer o veículo ao Brasil.

A Renault, em parceria com a Nissan, planeja também para o Brasil um veículo em torno de R$ 6 mil. Esses preços, praticados lá fora, devem chegar inflacionados, mas ainda abaixo dos carros populares que são vendidos hoje no País.

Lopes afirma que o grande desafio deste início de século é a operacionalização do trânsito. "A solução está clara para a sociedade de São Paulo: um sistema de transporte coletivo fortemente sustentável e um sistema viário estruturado para permitir a sua hierarquização, priorizando o coletivo", diz.

Fim dos espaços urbanos

Segundo Carlos Alberto Bandeira Guimarães, professor da área de Transportes da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o automóvel é incompatível com a topologia urbana. "O crescimento da frota na taxa de 4% ou 5% ao ano faz com que não haja mais espaço para tantos veículos", diz.

Guimarães afirma que a chegada dos veículos indianos e chineses é preocupante. "Isso pode fazer com que aumente a taxa de motorização da população. Grandes cidades como São Paulo e Campinas têm hoje um carro para cada dois habitantes. A média nacional é um carro para nove habitantes", diz.

De acordo com o professor, esse tipo de veículo reforça a idéia do transporte individual. "Não há outro jeito. O que precisa ser priorizado é o transporte coletivo", afirma.

Heloisa Martins, gestora da gerência de segurança de trânsito da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo, afirma que baratear muito o acesso individual aos veículos pode levar a uma situação insustentável.

"Não tem espaço para acolher todos. Se a pressão da demanda aumentar, novas medidas restritivas, como o rodízio, terão de ser tomadas. O custo coletivo disso é muito alto. É melhor ter espaços públicos de convivência do que viadutos ou avenidas largas", diz.

De acordo com ela, outro agravante dos veículos baratos é a falta de soluções para diminuir a quantidade de poluentes. "Isso pode agravar ainda mais a péssima qualidade do ar".

Poluição de veículos cresce a cada ano em São Paulo

Todos os dias são 870 carros e motos novos nas ruas de SP; índice causa acréscimo de 20% na procura por Pronto Socorros.

Na metrópole mundial onde carros têm maior peso na poluição do ar, 870 veículos são emplacados por dia. Nas ruas, essa frota provoca aumento médio de 5% na emissão anual dos cinco principais poluentes. O que implica acréscimo de até 20% na procura pelos prontos-socorros para resolver problemas respiratórios, como crises de asma, e de até 10% nas internações.

A situação fica ainda mais crítica em dias de sol forte, tempo seco e baixa dispersão de poluentes, como na semana passada. O governo do Estado proibiu João Gabriel de Oliveira, de 12 anos, de jogar bola na escola. Ele teve de se contentar em brincar de dominó, damas, xadrez e pingue-pongue na hora do recreio ou da aula de educação física - e só em lugar fechado. Com crises de asma e rinite, o empresário Orlando Favione precisou aumentar a carga de medicamentos para respirar normalmente. Bruna Di Monaco, relações-públicas de 25 anos, sentiu fortes dores no peito e correu na quinta-feira até o pronto-socorro para fazer inalação. O fiscal de trânsito Isaias Viana da Silva, de 44 anos, está torcendo para que chova bastante, para que a freqüência cardíaca volte ao normal.

Mas mesmo que chova e a umidade do ar aumente - ela caiu a 12% em algumas regiões -, os paulistanos não terão muito a comemorar. A qualidade do ar de São Paulo, além de estar longe do ideal preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), caminha para virar emergência de saúde pública.

Só em 2006, a frota da Região Metropolitana, responsável por 92% da poluição da capital, lançou no ar cerca de 1,5 milhão de toneladas de monóxido de carbono, índice recorde - ele vinha caindo nos anos 90, mas voltou a crescer em 2005, quando o efeito da modernização da frota perdeu força. Só os carros emitiram 852.600 toneladas de monóxido, enquanto as motocicletas lançaram 254.000 t - e os caminhões, 372.200 t.

Fonte: Portal Terra e Estadão