A imagem do maior
empresário brasileiro, Antonio Ermínio de Moraes, presidente do Grupo Votorantim,
se desgasta diariamente

Vicente Cioffi (*)
São Paulo, novembro de 2.007 - No último dia 19, o defensor público Wagner Giron
de la Torre (foto) ingressou com uma Ação Civil Pública, em São Luiz do
Paraitinga, região do Vale do Paraíba, em São Paulo, com pedido de concessão de
liminar, contra as Empresas Votorantim Papel e Celulose, Suzano Papel e
Celulose, o Governo do Estado de S.Paulo e a Prefeitura Municipal de São Luiz do
Paraitinga.
Nela, o
defensor solicita a imediata suspensão do plantio de eucalipto nas áreas
utilizadas pela Votorantim Papel e Celulose, Suzano Papel e Celulose e outras
plantadoras até que se realize o Estudo de Impacto Ambiental.
Segundo
Wagner Giron, “A ACP Ambiental, da Defensoria Pública do Estado, questiona os
nefastos efeitos ambientais e sociais derivados da monocultura do eucalipto:
"Trata-se de demanda inédita questionando, junto ao Judiciário, a série infinda
de devastação ambiental (e social) disseminada pelo cultivo, em escala
industrial, das monoculturas na região do Vale do Paraíba, em especial, no
município de São Luiz do Paraitinga, que tem já cerca de 20% de seu território
tomado pelo cultivo do eucalipto, implementado pelas grandes indústrias do papel
e celulose.
Essa ação derivou de mais de 1 ano de estudos e diálogo intenso com
ambientalistas da região frente à Defensoria local".
Plantações sem controle
As árvores de eucaliptos semeadas, sem qualquer controle ambiental, pelas
indústrias VCP-Votorantim Papel e Celulose e Suzano Papel e Celulose (que, junto
com Estado e Município de São Luiz) integram o pólo passivo da ação, são
clonadas em laboratórios, com baixíssimo teor de lignina (substância que insufla
o crescimento recorde dessas árvores, permitindo uma maior produtividade da
industrialização da celulose, evitando o amarelecimento do papel) e resistentes
ao glisofato, principal substância química existente nos pesticidas usados no
plantio da monocultura.
As árvores são plantadas num imenso mar morto por sobre os topos dos morros, em
terreno com declividade maior de que 45°, invadindo áreas de preservação
permanente, violando a proteção ambiental para cursos d'água, arroios, rios,
enfim causando um desastre ambiental sem precedentes na região.
Em função do massivo uso de pesticidas químicos no manejo da monocultura, há
grande incidência de intoxicação em mananciais e fontes aquáticas, causando
enorme prejuízo às populações rurais vizinhas aos latifúndios recobertos pelos
eucaliptos.
Além disso, a monocultura em alta escala gera maciço desemprego, suprime o
enraizamento cultural das populações rurais afetadas pelo cultivo, obriga uma
imensa gama da população de campesinos ao êxodo rural, inchando ainda mais as
periferias das cidades. Além do mais, viola e invade seculares centros de
devoção e fé da população do campo.
As violações ambientais, e sociais, são imensas, todas detalhadas e questionadas
nessa inédita ACP ambiental, fruto do diálogo intenso entre a Defensoria
Regional de Taubaté e a sociedade civil.
Anoto que cumulei ao pleito, pedido de suspensão das atividades do plantio do
eucalipto no município, além de reparação das papeleiras envolvidas à
indenização pelos danos morais e materiais, alinhavados na inicial em mais de
20.000 (vinte mil) salários mínimos, dentre outros pleitos.”
Centenas de páginas
A ACP Ambiental tem perto de cem páginas, cita estudos realizados no Espírito
Santo, na Bahia e na bacia do rio São Francisco onde milhares de nascentes
desapareceram. O secamento das nascentes vem ocorrendo em São Luiz do Paraitinga,
comprovado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores apavorados com a invasão do
eucalipto em mais de vinte por cento da área agriculturável do município.

Prefeito Municipal
O prefeito municipal de São Luiz, Luiz Danilo de Toledo finge não conhecer a
enormidade do problema e joga nas costas da Câmara Municipal a realização de um
Plano Diretor que estabeleça as normas para o plantio de eucalipto. Ou seja,
confessando que o município nem mesmo tem um plano diretor, infringe a Lei e as
determinações do Ministério das Cidades. Integrantes de um movimento popular já
cobram a intervenção nas contas da prefeitura e na vida pessoal do prefeito via
Imposto de Renda.
ONGs
Várias Organizações não Governamentais, as conhecidas ONGs, se especializaram em
montar projetos que são oferecidos a diversos financiadores, entre eles
indústrias poluidoras como a Votorantim, Petrobrás, Cognis, Monsanto etc.
Verdadeiras fortunas estão sendo arrecadadas. Resta saber como está sendo
manipulado esse dinheiro todo.
A CPI instalada na Câmara Federal tem que prestar atenção à atuação de algumas
conhecidas ONGs valeparaibanas como a Vale Verde, Bola de Meia, Camin, Eco
Sistema e Eco Solidário. Esta última, presidida pelo médico joseense Álvaro
Machuca, é apoiada financeiramente pela Votorantim para a realização de
determinados “projetos” justamente em São Luiz do Paraitinga, onde a indústria de
Antonio Ermírio é considerada maldita pela população em face da degradação
ambiental provocada pela monocultura de eucalipto.
Projetos culturais & mída
Não há quem não tenha notado o nome da Votorantim ligado ao patrocínio de
eventos culturais que vão desde artistas desconhecidos até nomes famosos do
teatro e show business em várias cidades brasileiras. Tornaram-se comuns na
capital paulista. Em São José dos Campos, a Votorantim injeta dinheiro na
Fundação Cultural Cassiano Ricardo apoiando shows e eventos. É responsável
também pela oferta de verbas nas campanhas eleitorais de conhecidos políticos
que brevemente serão denunciados.
Veículos de comunicação estão na folha da empresa de Antonio Ermírio de Morais,
a Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão se especializou, e tem até um projeto
conjunto com a poluidora o já famoso “Rio Vivo”. Além disso, os tentáculos da
Votorantim estendem-se a alguns conhecidos estabelecimentos de ensino onde são
empregados parentes de alguns políticos.
Marcelo Toledo
O incansável luizence Marcelo Toledo aplaudiu a iniciativa do defensor público
Wagner Giron. Segundo Toledo, “Era exatamente o que todos os ambientalistas
estavam exigindo, a criminalização dos responsáveis pela degradação ambiental
promovida pelos plantadores de eucalipto. Até agora vivemos numa terra sem lei
onde o dinheiro sempre falou mais alto. Em São Luiz, infelizmente, quem pode
pagar faz o que bem entende. Estamos cansados de implorar na Justiça, no
Ministério Público e não acontece nada. Vamos apoiar o Dr. Giron e aguardar que
a Justiça se pronuncie a favor de nossa cidade.”
Ricardo Ferraz
O combativo geógrafo, Ricardo Ferraz, foi pela mesma linha, “Parabéns ao Dr.
Wagner Giron pela atitude máscula. É preciso muita coragem para enfrentar esses
grupos econômicos que não respeitam nada nem ninguém. Até quando teremos que
suportar essa corrupção toda acobertada por uma impunidade jamais vista na
história desse país. Exigimos Justiça. Tem muito político safado pegando
dinheiro da Votorantim, basta entrar no site do TSE e comprovar. Mais dia, menos
dia, os que receberam e recebem dinheiro da Votorantim e outras poluidoras serão
denunciados, criminalizados e presos.”
O deserto verde
Ambientalistas da região protocolaram nos Ministérios Públicos Federal e
Estadual, em São José dos Campos e em São Paulo, um dossiê sobre o cultivo do
eucalipto no Vale do Paraíba e Grande São Paulo. O documento, assinado por
diretores do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Papel, Papelão e
Cortiça de Jacareí e de Mogi das Cruzes, Sociedade Ecológica Santa Branca e pelo
ambientalista Ricardo Ferraz, de Jacareí, informa que o plantio de eucalipto
pode estar causando danos ambientais à região.
O dossiê foi preparado pelo ambientalista Ricardo Ferraz, que, durante quatro
meses, pesquisou o cultivo da árvores na bacia hidrográfica, principalmente na
região do médio e alto Vale do Paraíba, onde estão localizados entre outros os
municípios de São José, Jacareí, Santa Branca e Paraibuna. Ferraz também
pesquisou a situação em municípios da bacia do rio Tietê como Mogi das Cruzes e
Salesópolis. "Se nada for feito, em 20 anos, o eucalipto irá dominar toda a
região", disse.
O relatório preparado por Ferraz contém fotos e imagens de satélite sobre a
cultura do eucalipto na região, uma árvore exótica utilizada para a fabricação
de papel e celulose. Levantamento da Secretaria de Agricultura e Abastecimento
do Estado aponta que a cultura da planta já ocupa uma área de 106 mil hectares
no Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira.
“O Vale do Paraíba está virando um dos maiores latifúndios de eucaliptos do
Estado". A afirmação é do ambientalista Ricardo Ferraz, da Sociedade Ecológica
de Santa Branca que, com José Roberto Martins e Mário Roberto Ventura,
presidentes do Sindicato de Papel, Papelão e Cortiça de Jacareí e de Mogi das
Cruzes, o Coletivo das Entidades Ambientalistas Cadastradas no Conselho Estadual
de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Consema, protocolou denúncias no
Ministério Público Federal e Ministério Público Estadual contra o plantio
indiscriminado de eucaliptos e pinus na região do Vale do Paraíba sem Relatório
Ambiental Preliminar e Estudo de Impacto Ambiental exigidos pela Legislação
Brasileira para áreas acima de 100 (cem) hectares.
Ferraz fotografou de helicóptero o plantio na região e constatou que somente o
município de Salesópolis tem 80% (oitenta por cento) da sua área tomada pelo
eucalipto. Em Jacareí o mesmo ocorre em 1/5 do município. “Na maior parte dos
municípios há grandes extensões de eucalipto, bem maiores do que o demonstrado
nos últimos levantamentos feitos no ano 2000.” Afirmou o ambientalista
salientando que um terço da região do Vale do Paraíba já está comprometida pelas
plantações de eucalipto, formando um grande deserto verde, comprometendo,
contaminando o solo e as águas através do uso indiscriminado de agrotóxicos.
Secando nascentes, eliminando a flora e a fauna e promovendo um êxodo rural sem
precedentes."
Ferraz é taxativo: "As plantações intensivas de eucalipto são realizadas por
grandes grupos econômico-financeiros. No Vale do Paraíba, o maior deles é a VPC,
Votorantim Papel e Celulose, do empresário Antonio Ermírio de Moraes, com
fábrica de papel em Jacareí e patrocinador de “programas ambientais” como o “Rio
Vivo” da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e outros patrocínios em diversos
veículos de comunicação. É preciso encontrar alternativas para informar à
população sobre os malefícios do eucalipto e a Internet é uma delas. O pior é
que tudo acontece com conhecimento das prefeituras municipais, dos prefeitos,
vereadores, deputados da região e do próprio Governo do Estado que se calam ou
fogem às perguntas sobre o assunto.
Uma das maiores preocupações com a monocultura do eucalipto é o prejuízo aos
lençóis freáticos devido ao grande volume de água consumido pelas muitas árvores
plantadas lado a lado, não se observando a umidade do solo no local. A falta de
variedade biológica e a ausência de espaçamento entre as árvores impedem a
recomposição da floresta nativa e do ecossistema natural com a ausência de
animais pela falta de espaço para trilhar e alteração do micro-clima da floresta
pela diminuição das chuvas.”
Ricardo Ferraz explica, “Num processo real de reflorestamento espécies como o
jatobá e o ipê deveriam ser privilegiadas e não uma monocultura exótica. Ainda
que os ciclos de cortes sejam mais demorados para as espécies nativas,
futuramente a auto-sustentabilidade é beneficiada, pois a qualidade do produto
final é melhor. O eucalipto clonal, por não ser uma espécie nativa do Brasil,
acaba promovendo a degradação do solo que vai virar um deserto. Depois de três
ou quatro plantios, a área não serve para mais nada.”