Aos 52
anos, Marcelo Pedroso Goulart atua desde 1985 na região de Ribeirão Preto, onde se notabilizou
pelas disputas contra usineiros da cana de açúcar.
Agora, à frente do grupo responsável por
processos ligados ao ambiente, ele moveu, só em 2009, 55 ações civis públicas,
inclusive contra grupos que produzem orgânicos. Seu próximo desejo é assegurar o
"direito difuso" dos brasileiros à reforma agrária.
É um funcionário do
Estado, que demonstra raro preparo profissional, intelectual e
cívico, com notável formação cultural, jurídica e política.
Goulart enfrenta com clareza e coragem
cívica a questão da preservação de um meio ambiente ecologicamente
equilibrado para esta e para as futuras gerações e a da função
social da propriedade da terra, assim como a da produção de energia,
hoje tão agredidas pelo agronegócio da monocultura e de grandes
empresas.
Outro elemento significativo das
posições assumidas pelo promotor é a compreensão e o respeito ao
papel dos movimentos sociais, contrastando com posicionamentos
sociais, políticos, culturais e institucionais de um país
autoritário como o nosso, cuja intolerância é particularmente
visível neste setor.
Segue a entrevista concedida ao
Folhanline:
O senhor é conhecido por atuar ao lado do MST e de entidades ambientais.
Esse é o papel de um promotor?
A visão do Ministério Público como mero agente processual está
superada desde a promulgação da Constituição de 1988. O membro do Ministério
Público é agente político e, hoje, tem a incumbência constitucional de defender
o regime democrático e implementar a estratégia institucional de construir uma
sociedade livre, justa e solidária.
Não
há o risco de se aproximar demais de entidades das quais deveria manter
distância?
Os
membros do Ministério Público têm clareza do seu papel social, dos limites de
suas funções e do uso do instrumental jurídico de que dispõem. Assim, a
aproximação entre Ministério Público e as forças progressistas da sociedade
torna-se inevitável e necessária. É um bem, não é um mal.
Como
o sr. distingue as entidades progressistas das outras?
As
forças sociais democráticas são aquelas que assumem o compromisso de implementar
o projeto democrático da Constituição de 1988. A Constituição definiu para o
país um modelo de Estado social e de democracia participativa. Os sujeitos
políticos que atuam na defesa desse projeto são aliados naturais do Ministério
Público na luta pela construção da hegemonia democrática. Não é difícil
identificá-los.
Por
que os produtores rurais não seriam progressistas?
Aqueles
grupos que defendem um modelo de agricultura social e ambientalmente
sustentáveis estão no campo democrático. Aqueles que, ao contrário, defendem um
modelo que leva ao descumprimento da função social do imóvel rural estão no
campo dos adversários do projeto democrático da Constituição da República. Esses
defendem o padrão de produção agrícola hoje prevalecente no Brasil.
Que
padrão é esse?
O padrão
que gera a concentração fundiária, que utiliza de forma inadequada os recursos
naturais e que degrada o ambiente por ser baseado na monocultura e na
agroquímica. É um padrão concentrador da propriedade, da renda, da riqueza e do
poder político.
Por isso, contraria o projeto da Constituição.
Entre as empresas processadas pelo senhor, estão algumas conhecidas pela
produção de açúcar orgânico, sem agrotóxico.
Não vamos nos enganar. Algumas usinas fazem açúcar de ótima qualidade,
orgânico, sem agrotóxico. Mas se negam a fazer acordos conosco na questão da
reserva legal. E a lei é clara: as propriedades rurais devem manter ao menos 20%
da área com floresta permanente.
E se
o desflorestamento ocorreu antes, por outros proprietários e sob o respaldo de
outras leis?
Não
existe direito adquirido contra o ambiente. As normas de ordem pública, como as
ambientais, aplicam-se não somente aos fatos ocorridos sob sua vigência, mas
também aos efeitos dos fatos ocorridos anteriormente à sua edição. Não permitir,
hoje, a reparação com o reflorestamento das reservas florestais legais é
castigar o planeta e a sociedade à sanha do mercado.
O
que o senhor acha do álcool combustível?
A queima
do combustível álcool também polui, e o processo de produção do álcool é sujo.
Temos a queima da cana, o desmatamento, o uso incontrolado de insumos químicos.
Além da super exploração do trabalho. Mais: a produção do álcool exige economia
de escala, que somente se viabiliza nesse padrão de produção baseado na
monocultura e na concentração fundiária. São Paulo está se tornando um grande
canavial. O futuro não está no álcool, mas em outras alternativas, como o
hidrogênio e a eletricidade. Diria que o álcool é um combustível de transição.
Não terá vida longa.
A
monocultura mecanizada não é uma tendência inexorável da agricultura mundial?
Claro que não. Não é assim na Europa. Precisamos discutir outros modelos.
Temos um pensamento único por parte da elite dirigente nacional em relação à
agricultura.
Segundo estudo do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária),
os assentamentos concentraram metade do desmatamento na Amazônia. O que o sr.
acha disso?
Não há sentido em desapropriar grandes imóveis rurais que descumprem a função
social para, no mesmo local, implantar assentamentos anti-ambientais. Daí a
importância da participação do Ministério Público no acompanhamento do
desenvolvimento dos assentamentos.
O
senhor foi muito criticado no episódio da desapropriação da fazenda da Barra,
dentro de Ribeirão Preto. Como foi isso?
É.
Fizemos reforma agrária nas barbas da capital do agronegócio. Havia grandes
passivos ambientais e a suspeita de improdutividade. Instaurei um inquérito
ainda no governo FHC. Chamei o superintendente do Incra e disse: precisa abrir
processo administrativo de desapropriação. Ele abriu. Chamaram-me de Robespierre,
de promotor maluco. A desapropriação acabou saindo, já no governo Lula.
A área da
fazenda da Barra parece inóspita, incipiente. A experiência deu errado?
Inóspito, não. Incipiente, sim. Ali será implantado assentamento agroforestal
cujas bases são objeto de discussão no âmbito de inquérito civil instaurado pela
Promotoria de Justiça. O que está faltando é maior agilidade do Incra na
implantação da infraestrutura básica a viabilizar a produção e o
reflorestamento. Dinheiro do BNDES para grandes usinas, tem. Outro dia saiu um
empréstimo de R$ 80 milhões para uma delas.
Por
que a promoção da reforma agrária deveria ficar a cargo de promotores?
O
papel do Ministério Público é claro: defender a função social da terra e o
direito difuso à reforma agrária, utilizando os instrumentos jurídicos que a
Constituição e as leis lhe conferem, firmando aliança com os setores da
sociedade civil que tenham o mesmo objetivo. A atuação radicalmente contrária a
essa está presente na história desse país desde as capitanias hereditárias. Seus
agentes são por demais conhecidos; com eles o Ministério Público da Constituição
de 1988 não se alinhará.
Como
o sr. definiria uma propriedade rural que não cumpre sua função social?
A
improdutiva, a que utiliza de forma inadequada os recursos naturais, degrada o
ambiente ou impõe condições sub-humanas de trabalho.
Uma
área produtiva que não se curve à sua definição de função social pode ser
desapropriada?
Minha definição, não. A da Constituição. Juridicamente, pode. Agora, tem muita
propriedade antes dessa para ser desapropriada. Tem que começar pelos casos mais
graves.
O
senhor parece não gostar de grandes propriedades rurais.
No meu
horizonte utópico não está presente um grande número de usinas de açúcar e
álcool, por exemplo. No meu horizonte utópico estão a policultura, a geração de
postos de trabalho no campo e a agricultura orgânica. Está o acesso do povo à
terra, que é um direito fundamental negado desde o descobrimento. A estrutura
fundiária brasileira é uma das principais razões de nosso subdesenvolvimento.
O
senhor é socialista?
Como promotor de Justiça, sou defensor da Constituição, do projeto
democrático. Essa é a minha missão. Minhas convicções pessoais são só isso:
minhas convicções pessoais.
Quais convicções?
Utopicamente? Acredito na possibilidade de construir uma sociedade socialista.
Sob um ponto de vista gramsciano, se avançarmos na linha da Constituição, vamos
dar grandes passos para, no futuro, caminhar para uma sociedade socialista.
Como
é que isso ocorreria?
A partir do momento em que os princípios sociais da Constituição forem sendo
efetivamente conquistados, não só no papel, mas na realidade, haverá um choque
lá na frente. Teremos de discutir, por exemplo, como é que a dignidade da pessoa
humana pode conviver com o direito de propriedade. E assim por diante.
Mas
a Constituição não protege o direito à propriedade?
A propriedade tem que cumprir a função social. O direito de propriedade não é
absoluto. O imóvel que não cumpre a função social deve ser desapropriado. Não é
uma opção. Está lá na Constituição. Temos que construir uma sociedade livre,
justa e solidária. Isso só vai acontecer quando desconcentrarmos a terra.
O
senhor já teve alguma experiência política?
Em 1991, afastei-me do Ministério Público para ser candidato a prefeito de
Jardinópolis pelo PT. De quatro candidatos, consegui a façanha de não ficar em
último. Fiquei em terceiro. Desfiliei-me e voltei à instituição.
[Antonio] Gramsci [pensador marxista italiano], a quem o sr. admira, atribui a
força unificadora da sociedade, que Maquiavel atribuía ao Príncipe, a um
partido. Por isso ele chamava o partido - no caso, o comunista - de "Moderno
Príncipe". Que partido, na sua opinião, ocupa a função de Moderno Príncipe no
Brasil?
Hoje não faz sentido pensar em partido político. São as forças democráticas
que cumprem uma função hegemônica e que, articuladas, logo avançam a batalha das
idéias, na imprensa, no Ministério Público, nas instituições. E criam a base
cultural para as mudanças políticas e econômicas. Esse é o caminho democrático
da construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
O
senhor tem chefe?
Não existe hierarquia funcional no Ministério Público. Um de nossos princípios
é o da independência funcional, que ganhou força com a Constituição de 1988.
Esse princípio serve para proteger o membro do Ministério Público das pressões
do poder político, econômico e interno.
Fonte:
Folhaonline