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Quanto vale um "click" da vida silvestre?

Eduardo Athayde *

Um leão africano pode ser comprado por US$ 25 mil no mercado. No seu habitat natural, o mesmo leão pode gerar cerca de US$ 1,5 milhão/ano, amealhados por pacotes de viajem e clicks dos milhares de turistas que buscam vivenciar o ambiente na presença do rei da selva.

As ações de preservação dos parques africanos, regulamentadas pelo Estado e constantemente divulgadas por instituições sustentáveis como a National Geographic, estão cada vez mais entrosadas com atividades empresariais que financiam as caras estruturas conservacionistas.

No Brasil, avanços conseguidos com a Lei 9.985, de 2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), regulamentada pelo Decreto 4.340, de 2002, atendendo ao que determina o artigo 225 da Constituição Federal, empacam na crônica falta de recursos financeiros públicos para a manutenção das áreas.

A nova Lei do SNUC pode ser aperfeiçoada para atrair investimentos e melhor atender aos interesses da sociedade. A despeito dos esforços realizados, o pífio orçamento do ministério do Meio Ambiente para a manutenção das Unidades de Conservação (UCs), ainda sofre os efeitos de contingenciamentos e pressões de outros interesses políticos junto ao Ministério da Fazenda, concorrendo para liberações das verbas.

Conectando os interesses privados, desoneramos o Estado, onde recursos são sempre insuficientes, e ampliamos as possibilidades reais de preservação, gerando lucros sociais, econômicos e ecológicos de forma integrada. Que caminho seguir?

Em fevereiro de 98, quando o Grupo de Trabalho Intergovernamental das Nações Unidas, formado por especialistas internacionais de contabilidade, finalizou o "Relatório Financeiro e Contábil sobre Passivo e Custos Ambientais", a Contabilidade Financeira Ambiental passou a ter status de um novo ramo da ciência.

A exigência de contabilidade e balanços ambientais para avaliar o patrimônio das UCs e suas mutações indicará o valor dos serviços da vida silvestre e da sua preservação. Durante a audiência pública em Porto Seguro, convocada pelo Ministério do Meio Ambiente para a ampliação e implantação de UCs, governo e proprietários de terras invocaram, durante nove - ininterruptas e tensas - horas, irrefutáveis argumentos para defender interesses aparentemente diversos.

Não podemos perder tempo precioso - e biodiversidade - em embates polêmicos. Existem saídas sinérgicas para o problema e exemplos de ações concretas pelo mundo, unindo forças públicas e privadas em equações inteligentes para transformar preservação em PIB.

Com as desigualdades econômicas e o passivo social do Brasil, econegócios podem ser o caminho mais curto para garantir a preservação. Se a proposta de ampliação do Parque Nacional do Pau Brasil (criado em 1999, atualmente com 11.500 hectares, 2.500 hectares ainda sem regularização fundiária e dois funcionários para a fiscalização), em discussão, passar pelo crivo da contabilidade ambiental, pode aguçar interesses de corporações e de pequenos proprietários, incentivando investimentos privados de interesse público para a preservação partilhada. Em Porto Seguro, também foi discutida a criação do Refúgio da Vida Silvestre Rio do Frade, na Restinga de Trancoso, em área privada de alto valor de mercado.

O local abriga uma população do lagarto Cnemidophorus nato, espécie endêmica, que habita restingas do litoral brasileiro, pesquisadas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Cenários montados dentro dos princípios da contabilidade ambiental ajudarão a avaliar, criteriosamente, como funcionaria uma UC no processo de PPP - Parceria Público-Privada- estimando o valor do lagarto preservado e dos documentários de instituições como a National Geographic na atração de recursos para garantir a preservação sustentável dessas áreas, como fazem, com sucesso, na África.

Diante da devastação acelerada que consumiu 93% da Mata Atlântica, ações oficiais de conservação são insuficientes. A nova pergunta (e desafio) agora é: em quanto tempo poderemos reconstruir - lucrativamente - parte do bioma? O brasileiro naturalizado alemão Achim Steiner, diretor-executivo do Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA), afirmou no seu discurso de posse: "Durante muito tempo, a economia e o meio ambiente pareciam jogadores rivais.

Temos de transformar essas duas caras do desenvolvimento em jogadores do mesmo time". Steiner, ex- diretor da União Mundial para a Conservação (IUCN), disse que um dos desafios é acabar com o antagonismo entre política econômica e meio ambiente, concentrando esforços na análise dos mercados e incentivos econômicos.

Os bancos, que se esforçam para agregar valores às suas imagens, têm na preservação do ativo ambiental nacional uma rentável oportunidade de econegócios. O Bradesco, usando sutilezas de marketing, lucra com o título de capitalização "Pé Quente Bradesco SOS Mata Atlântica", perguntando: "Que tal ajudar a reflorestar a Mata Atlântica e ainda ser premiado por isso? Nunca valeu tanto a pena cuidar da Natureza".

Com um "click" no site do banco, o cliente pode plantar árvores e concorrer a prêmios. Ganham o Bradesco, a SOS, a Mata Atlântica e a sociedade como um todo. O Itaú, ABN-Amro, Unibanco, HSBC, UBS/Pactual e tantos outros que especulam oportunidades para investir em ativos ambientais têm a opção do Parque do Pau-Brasil e a do lagarto nato, grifes que poderão virar blue-chips no mercado.

Leões e banqueiros são potenciais preservadores quando conciliam a proteção da mãe natureza com a natureza das suas atividades. Experts dos bancos facilmente avaliam a biodiversidade e seus serviços, o potencial econômico e a sua utilização sustentável, investindo e disponibilizando informações para educadores, comunidade científica, formuladores de políticas ambientais e tomadores de decisão, ajudando a entender o valor de um "click" da vida silvestre.

Eduardo Athayde é diretor do WWI-Worldwatch Institute no Brasil.