Por que é difícil reflorestar

Se toda a área desmatada começasse a ser recomposta agora, não haveria sementes nem mudas suficientes


 

São Paulo, 12 de dezembro de 2.009 - Terminou na sexta-feira, dia 11, o prazo para os proprietários rurais de todo o País averbarem a área onde será mantida ou estabelecida a reserva legal de suas propriedades. Reserva legal é a área mínima de floresta nativa que toda propriedade rural deve ter, respeitando as proporções previstas no Código Ambiental (de 80% da área para propriedades na Amazônia, 35% para o Cerrado e 20% para as demais regiões).

Ao todo, conforme a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), para cumprir a lei seria necessário reflorestar uma área de 85 milhões hectares, ou 10% de todo o território nacional. Levando em consideração a orientação que diz que para hectare são necessárias, no mínimo, 1.667 mudas, a reposição dessas áreas demandaria um investimento de R$ 425 bilhões.

Não bastasse a imensidão da área de florestas que precisa ser recomposta e as infindáveis polêmicas em torno do assunto, envolvendo, de um lado, o Ministério da Agricultura e os produtores rurais e, do outro, os ambientalistas e o Ministério do Meio Ambiente, a recomposição das áreas devastadas tem outra grande barreira a ser transposta: a da capacidade limitada do mercado em fornecer sementes e mudas na quantidade e variedade (tanto de espécies quanto de matrizes) suficiente para suprir a demanda, caso não haja mais prorrogação no prazo ou alterações no código ambiental, como reivindicam os ruralistas.

Segundo o superintendente técnico da CNA, Moisés Pinto Gomes, se for considerada apenas a área que o Ministério da Agricultura acha necessário ser recomposta, que é de 40 milhões de hectares, já não haveria nem quantidade, nem variedade suficientes de mudas e sementes nativas para cada bioma a ser recomposto.

Sem regulamentação

Para ele, a falta de regulamentação e a ausência de um programa nacional focado na produção de sementes para o reflorestamento faz com que existam poucos viveiros qualificados. "E como as sementes para esses projetos têm de ser colhidas dentro do bioma local, fica impossível eleger como fornecedor somente os poucos viveiros que seguem as normas de qualidade", diz Gomes. "Com isso, empresas de fundo de quintal acabam entrando nesse mercado, o que compromete a qualidade desses projetos de reflorestamento."

O biólogo e especialista em reflorestamento da empresa Brasil Diverso Soluções Ambientais, Otávio de Moraes, endossa o que diz Gomes. Ele relata que, em razão da falta de profissionalização do setor de produção de mudas, tem tido dificuldades para realizar projetos de recomposição de áreas desmatadas dentro dos padrões necessários. "Sempre que temos que comprar uma grande quantidade de mudas é uma dificuldade.

Recentemente, para conseguir 4 mil mudas das 80 espécies necessárias, tivemos que percorrer vários viveiros e levamos 30 dias para fechar o pacote", conta Moraes. "E esse era um projeto pequeno", destaca. Segundo ele, a maior fatia do mercado de sementes e mudas é composta por pequenos produtores. Por isso eles não têm escala para atender à demanda. "Quando você faz uma encomenda de 20 mil mudas para esses produtores, muitas vezes isso corresponde a todo o estoque dele", observa Moraes.

"Esses viveiros são formados sem muito critério, cultivando poucas espécies", diz o consultor Flores Welle, cuja empresa elabora projetos de reflorestamento e realiza o plantio das árvores. Segundo ele, como o processo de colheita das sementes é muito artesanal essas empresas acabam se focando num número mais restrito de espécies.

E a ausência de variação genética das sementes e mudas pode produzir reflorestamentos de baixa qualidade, o que vai levar à degradação dessas florestas no médio prazo, conforme alerta Moraes. "Essa variação é importante para a sobrevivência da floresta. Sem ela a espécie fica enfraquecida e uma única doença pode matar todas as árvores."

Profissão: coletor de sementes. Conhecimento e disposição são essenciais

Curiosidade inata para conhecer árvores nativas e suas espécies, disposição para acordar antes de o sol nascer, entrar na mata e ficar o dia todo colhendo e identificando sementes. Essas são as principais características de um bom "mateiro", ou coletor de sementes, na opinião de quem faz isso há mais de uma década e hoje até ensina o ofício para agrônomos e biólogos.

Profissional disputado no mercado, o coletor Emilson Rabelo, de Araraquara (SP), afirma que o dia a dia da profissão é duro e que não se adquire o conhecimento necessário para se diferenciar no mercado de trabalho da noite para o dia. "O coletor primeiramente tem que gostar muito do que faz, pois terá de enfrentar a mata, de se sujar e, às vezes, se expor a alguns riscos, como o de cair de uma árvore ou se deparar com um animal perigoso."

Ele frisa ainda que a atividade envolve também muita pesquisa. "Sempre que se encontra uma espécie desconhecida é preciso recolher uma amostra e buscar informações sobre ela na literatura", explica. Isso será recorrente nos primeiros dois ou três anos de profissão.

Afinal, a variedade da flora brasileira é imensa e leva tempo para conhecer um pouco dela. Na visão de Rabelo, faltam cursos de qualificação para preparar e até incentivar o ingresso de pessoas na profissão, que tende, na visão dele, a ser cada vez mais requisitada à medida que o volume de projetos de reflorestamento começar a crescer.

"Hoje isso já acontece, os poucos profissionais que existem no mercado são disputados por viveiros, pois sem esse trabalho eles acabam tendo que comprar sementes dos concorrentes que têm uma equipe de coletores."

Fonte:  O Estado de S. Paulo, repórter Leandro Costa