Resposta ao laudo da PF sobre o
assassinato do cacique Nisio
Os membros guarani e kaiowá
violentados foram e são interrogados publicamente por várias lideranças
Conselho da Aty Guasu
Dezembro de 2.011
As manifestações públicas das lideranças do povo Guarani e Kaiowá, nas últimas
três décadas, ocorreram através da grande assembléia Guarani e Kaiowá Aty Guasu.
Assim, destacamos que ao longo da década 1990, frente às violências adversas
contra povo indígena, as narrações ou versões das lideranças indígenas em parte
foram e são distorcidas e ignoradas pelas autoridades brasileiras.
A historiografia oficial registra que entre décadas de 60 e 80, os fazendeiros
recém-assentados, aliados ao poder político da região Cone Sul e à ditadura
então em vigor, começaram expulsar e dispersar de forma violenta as famílias
grandes guarani-kaiowá dos seus territórios tradicionais tekoha guasu. Os atos
etnocidas eram considerados pelas autoridades federais como normais/naturais,
culpando e criminalizando os índios, fato que perdura até hoje. Diante desses
atos truculentos dos poderes políticos e fazendeiros, na década 80 emergiu a
grande assembléia guarani e kaiowá, Aty Guasu.
O objetivo da Aty Guasu foi e é o de fazer frente ao processo sistemático de
etnocídio/ genocídio, violências e a expulsão forçada das famílias extensas
indígenas do seu território tradicional. Além disso, os membros-conselhos de Aty
Guasu investigam e relatam todos os fatos violentos praticados contra os
integrantes do povo Guarani-Kaiowá, convocando/intimando os membros indígenas
violentados para narrar os fatos verídicos no seio da assembléia Aty Guasu. Os
indígenas devem narrar e reproduzir os episódios-ataque dos pistoleiros, de modo
repetitivo, a todas as lideranças do povo Guarani e Kaiowá. Neste momento de Aty
Guasu, os membros guarani e kaiowá violentados foram e são interrogados
publicamente por várias lideranças. Essa sessão de depoimento dos indígenas
violentados intimados pelos conselhos da Aty Guasu é justamente para analisar os
depoimentos dos próprios indígenas e concluir publicamente os fatos ocorridos
pela assembleia da Aty Guasu.
Da Aty Guasu participam hoje centenas de lideranças guarani-kaiowá que
investigam, interrogam e aprovam os depoimentos dos indígenas violentados
durante os ataques praticados pelos pistoleiros em todas as regiões do Cone Sul
de MS. É importante se observar que, entre essas lideranças-investigadores de
Aty Guasu, estão indígenas graduados e pós-graduados em universidades públicas,
portanto utilizam diferentes métodos e técnicas de investigações científicas
conforme os fatos ocorridos. Somente depois disso foram e são feitas as
denúncias dos crimes variados contra o povo Guarani-Kaiowá.
No que diz respeito ao xamã Nisio Gomes, nós
lideranças-investigadores da Aty Guasu investigamos rigorosamente o caso do
líder xamã Nisio Gomes, ouvimos em detalhe todos os rezadores, parentes, irmãos
(ãs), filhas (os), netos (as) de modo repetitivo, na grande assembleia Aty Guasu.
A partir de todos os depoimentos ouvidos e analisados no seio da Aty Guasu
concluímos que a liderança religiosa Nisio Gomes de fato foi massacrado,
assassinado e levado do tekoha Guaiviry no dia 18/11/2011 pelos pistoleiros das
fazendas. Esta é conclusão definitiva que prevalece entre nós todos, os povos
Guarani e Kaiowá.
Fonte: Brasil de Fato