Tecnologia
para produção de etanol avança sem controle
São Paulo, setembro de
2.009 - Apesar dos
inúmeros alertas feitos por movimentos sociais e ambientalistas acerca dos danos
que a expansão da produção do etanol causa à biodiversidade, tecnologias têm
sido lançadas e aperfeiçoadas por grandes transnacionais que visam a
consolidação do produto no mercado mundial.
Silvia Ribeiro (foto), pesquisadora mexicana do Grupo ETC, afirma que as seis
empresas que controlam a produção de transgênicos em todo o mundo - Monsanto,
Syngenta, DuPont, Bayer, Basf, Dow, já têm investigações e investimentos na
produção de novos cultivos transgênicos dedicados aos agrocombustíveis.
Segundo ela, estão sendo desenvolvidas plantas resistentes a múltiplos
agrotóxicos ao mesmo tempo, assim como também existem avanços para introduzir
cana-de-açúcar transgênica da Monsanto e Syngenta no mercado brasileiro,
produzida em acordo com o Centro de Tecnologia da Canavieira (CTC).
A pesquisadora explica que, em resposta aos estudos que comprovam que os
agrocombustíveis competem com a produção alimentar, tais empresas alegam que
farão cultivos transgênicos mais específicos para a produção de agrocombustíveis,
o que, na avaliação de Ribeiro “é muito grave porque a contaminação transgênica
se torna um grande risco para a cadeia alimentar”.
Tal avanço tecnológico, explica Silvia, representa um enorme estímulo aos
monocultivos industriais “que aumentarão o deslocamento da produção camponesa e
familiar para fins alimentares, além de aumentar os impactos ambientais e à
saúde, e ampliar a dependência com as transnacionais”.
Etanol
celulósico
Dentre as novas formas de produção do etanol desenvolvidas atualmente, está o
etanol celulósico, que é obtido a partir de madeira decomposta, submetida a um
processo de fermentação através de enzimas.

Horácio Martins de Carvalho
Segundo o
engenheiro agrônomo Horácio Martins de Carvalho, este tipo de agrocombustível
pode ser produzido a partir de qualquer tipo de madeira, assim como de bagaço da
cana-de-açúcar e palha do milho, permitindo assim que o etanol seja produzido
mundialmente. “Com essa mudança no tipo de oferta do etanol, abre-se uma
possibilidade mundial de países do norte e da Europa produzirem etanol a partir
das suas florestas de pinheiros ou de outras matérias secas”, conta.
Porém, ele alerta para o fato de que a consolidação mundial do produto, agora
não mais somente para a produção de combustível, mas também de outras matérias,
como o plástico, acompanhada por esta revolução tecnológica está sendo
monopolizada pelas grandes transnacionais. Assim, não há como se prever as
consequencias. “Essa é uma revolução que está no escuro, nós ainda estamos
tateando para ver o que vai acontecer”, comenta.
Segundo ele, o etanol já se tornou a segunda fonte de energia brasileira, atrás
somente do petróleo. Carvalho prevê que a produção do etanol celulósico possa
significar uma redução no ritmo da expansão da cana-de-açúcar. Mas alerta: “isso
é relativo, porque, assim como o Brasil abriu as portas para o capital
estrangeiro, que vem sendo convidado a comprar terras no Brasil, para aumentar
os investimentos, não significa que outras culturas não vão pressionar as
culturas alimentares”.
Carvalho denuncia que no Brasil grandes grupos da celulose, como a Aracruz, a
Votorantim e a Stora Enzo, já estão investindo em usinas de álcool, se
preparando para o etanol celulósico.
Em relação a tais empresas, Silvia Ribeiro acredita que possam avançar em novos
experimentos na área. “É possível que também as grandes empresas de monocultivos
de árvores pretendam usar árvores transgênicas para a produção de etanol
celulósico”, supõe
Biologia
sintética
Os impactos relacionados à produção do etanol com a utilização de transgênicos e
a produção do etanol celulósico são agravados por uma nova tecnologia, altamente
complexa e ainda desconhecida por muitos, a biologia sintética.
Tal tecnologia permite que se crie artificialmente organismos vivos para
variados fins. No caso da produção dos agrocombustíveis, grandes grupos
transnacionais têm investido na criação de micróbios que acelerem o processo de
fermentação dos materiais orgânicos para extração do álcool.
“No Grupo ETC chamamos esta nova tecnologia 'engenharia genética extrema', já
que é engenharia genética, mas com genes construídos artificialmente, para
conseguir propriedades que não existem na natureza nem na indústria, agregando
novos genes artificiais a organismos existentes, ou alterando seus passos
metabólicos”, define Silvia Ribeiro.
A biologia sintética “complementa e aumenta os riscos dos transgênicos”,
explica. Já no caso do etanol celulósico, a tecnologia vem para facilitar o seu
processo de produção. Ribeiro explica que esse é um dos grandes objetivos das
transnacionais. “A digestão de celulose para combustíveis requer tanta energia,
que não era viável. Com os micróbios sintéticos e o desenho de árvores e plantas
transgênicas, isto se facilita”, descreve.
A pesquisadora alerta para o fato de que a tecnologia não substituirá o modo de
processamento do etanol já existente, mas “irá aumentá-lo e, portanto, aumentará
a demanda de terras, água e os monocultivos industriais de cana-de-açúcar,
milho, soja, eucaliptos e outras plantas e árvores”.
Além disso, Ribeiro explica que, por ser nova e protegida pelas grandes
transnacionais, não há nenhuma regulação no mundo inteiro para a utilização da
biologia sintética, o que contribui para o seu avanço e também para o aumento de
riscos à biodiversidade. “Os proponentes da tecnologia querem conseguir 'códigos
de conduta' que sejam aplicados pelas próprias empresas, sem verificação nem
controle independente, o que é absurdo”, protesta.
Fonte:
Brasil de Fato