Jornal inglês "The Independent" adverte que pode haver apenas um ano para a Amazônia, segundo opinião de cientistas

A floresta amazônica está a ponto de se tornar em um deserto, com catastróficas conseqüências para o clima do mundo todo. É o que sugerem novas pesquisas. E o processo, que seria irreversível, pode começar já no próximo ano.


 

Londres, setembro de 2.006 - A vasta floresta da Amazônia está a ponto de se tornar em um deserto, com catastróficas conseqüências para o clima do mundo todo. É o que sugerem novas pesquisas. E o processo, que seria irreversível, pode começar já no próximo ano.

Estudos realizados pelo Woods Hole Research Centre, realizados na Amazônia concluíram que a floresta não pode agüentar mais que dois outros anos consecutivos de seca sem entrar em colapso. Cientistas dizem que isto expandiria a seca para o hemisfério norte, incluindo a Grã-Bretanha, o que pode acelerar decisivamente o aquecimento global, deixando fora de controle um processo que pode redundar em um mundo inabitável.

Estas notícias alarmantes chegaram em plena onda de calor que se abateu sobre boa parte da Europa e dos EUA, em julho passado (com pouca repercussão no Brasil).

A pesquisa, realizada na base de Santarém do centro de pesquisas sediado em Massachusetts (EUA), tomou de surpresa até mesmo os cientistas. Quando o pesquisador Daniel Nepstad começou o experimento em 2002, cobrindo com painéis de plástico um tufo de floresta do tamanho de um campo de futebol, para ver como ela se comportaria sem chuva, cercou-a com sensores sofisticados na expectativa de detectar mesmo alterações menores. No primeiro ano, as árvores conseguiram resistir à seca sem dificuldade. No segundo ano, afundaram ainda mais suas raízes para encontrar umidade, mas sobreviveram. Mas no terceiro ano, elas começaram a morrer, a começar pelas árvores mais altas, expondo a floresta ao sol. No final do ano, as árvores tinham liberado mais de 2/3 do dióxido de carbono por elas armazenado durante suas vidas, atuando como refreadoras do aquecimento global. Elas agora começaram, ao contrário, a acelerar a mudança climática.

Conforme reportado nesta edição, a Amazônia está agora enfrentando seu segundo ano sucessivo de seca, o que leva à possibilidade de que ela possa começar a morrer no próximo ano. A imensa floresta contém 90 bilhões de toneladas de carbono, o suficiente para incrementar a taxa de aquecimento global em 50%. Nepstad prevê "mega-incêndios" rapidamente por toda a floresta. Com o fim das árvores, o solo será transformado em deserto pela ação do sol.

A Dra. Deborah Clark, da University of Missouri, uma das mais renomadas ecologistas da floresta, afirma que a pesquisa mostra que “a fechadura foi quebrada” ("the lock has broken") no ecossistema da Amazônia. Ela acrescenta: a Amazônia tomou um terrível rumo ("is headed in a terrible direction").

por Geoffrey Lean e Fred Pearce, autor de “A Última Geração” (The Last Generation, Eden Project Books, 2006)

“Um ano para salvar a Amazônia”

No coração da maior floresta tropical do mundo, a uma distância de 9 dias do mar por barco, Otavio Luz Castello observa ansiosamente as águas mansas da Amazônia secarem. Dia após dia, elas recuam, como uma água escapando lentamente de uma banheira inimaginavelmente imensa, ameaçando uma catástrofe global. Quarta-feira passada, 20 de julho, ele mostrou o que está acontecendo em uma ilha em um tranqüilo canal do rio gigante. Apenas um mês atrás, explicou, esta ilha estava inteiramente submersa. Agora, ela está 15 pés (5 metros) acima do nível da água. Este é um severo sinal de que a seca está retornando à Amazônia pelo segundo ano sucessivo.

Apenas um dia antes, eminentes cientistas estavam enviando ao mundo a mesma mensagem em um notável Simpósio sobre o Rio Negro, sobre cujas estranhas negras águas está Manaus, a capital da Amazônia. Eles declararam à platéia – reunida em uma frota de barcas pelo Patriarca Ecumênico Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, apelidado o “Papa Verde”, por seu ativismo ambiental – que o aquecimento global e o desmatamento estavam levando rapidamente a enorme área florestal a seu “ponto limiar” ("tipping point"), para além do qual ela começaria irreversivelmente a morrer.

As conseqüências seriam verdadeiramente assombrosas. A úmida Amazônia, a maior celebração de vida do planeta, tornar-se-ia em uma savana seca, na melhor das hipóteses, e, na pior, em um deserto. Isto fará com que o mundo – inclusive a Europa – torne-se mais quente e mais seco, fazendo este escaldante verão parecer um aperitivo suave do que está para vir.

Lugar algum parece mais distante dos problemas do mundo que o idílico lugar em que Otavio Luz Castello vive (a Reserva Mamirauá), a meio caminho entre Manaus e a fronteira com a Colômbia. Raros botos cor-de-rosa brincam nas águas tranqüilas (...) borboletas gigantes e brilhantes voam em zig-zag, enquanto macacos saltam nas árvores, às margens do rio. E um caimão preto [tipo de jacaré] de 18 pés (6 metros), que responde pelo nome de Fred, atende ao chamado de seu jantar de fatias de pão. Isto tudo pode estar testemunhando as primeiras cenas de um apocalipse. As águas dos rios da bacia amazônica baixam rotineiramente 30 a 40 pés (10 a 12 metros) a mais que a maioria das marés do mundo, entre as estações úmidas e secas. Mas no ano passado elas não pararam de baixar, na pior seca de que se tem registro na história.

Na Reserva Mamiraua, elas caíram 51 pés (17 metros), 15 pés (5 metros) abaixo do nível baixo usual e outras áreas foram afetadas ainda mais intensamente. Em um ponto, no estado do Acre, o maior rio do mundo encolheu tanto, que era possível atravessá-lo a pé. Milhões de peixes morreram; milhares de comunidades, cujo único meio de transporte é o rio, ficaram ilhadas. E a floresta ressecada pegou fogo. Em um ponto, em setembro, imagens de satélites detectaram 73.000 focos de incêndio independentes na bacia amazônica.

Este ano, afirma Otavio Luz Castello, a água está baixando inclusive mais rapidamente que da última vez e ainda temos pela frente mais 3 meses de estação seca. E acrescenta: “Estou muito preocupado”

A situação é a mesma por toda a Amazônia. No Parque Nacional do Jaú, a 18 horas de Manaus por barco, pelo Rio Negro, a população local que me levou de canoa achava impossível atingir sem problemas lugares navegáveis até a noite anterior. O estado do Acre, extraordinariamente, não recebe chuvas há 40 dias, e bancos de areia começam já a despontar. Sobrevoando a floresta – com árvores a perder de vista – parece inconcebível que algo possa pôr em perigo esta imensidão verde. Até recentemente, cientistas eram desta opinião, e a viam como um dos meio ambientes mais estáveis do mundo. Embora eles condenassem a prática de derrubar por ano uma área, em média, equivalente ao País de Gales, isto não parecia ameaçar a floresta como um todo, e muito menos o inteiro planeta. Agora, eles estão mudando de opinião, em face da crescente evidência de que o desmatamento está levando a Amazônia e o mundo à beira do desastre.

O Dr. Antonio Nobre, do Instituto Nacional da Amazônia, do Brasil, relatou ao Simpósio flutuante de Manaus – cujos participantes eram políticos, ambientalistas, indígenas, e cardeais da Igreja Católica Romana – suas pesquisas ainda não publicadas, as quais sugerem que o desmatamento está secando a inteira floresta e associando-se às causas dos furacões como os que assolaram os EUA e o Caribe.

A Amazônia quente, úmida, ele explicou, normalmente evapora vastas quantidades de água, que atingem grandes altitudes na atmosfera, como em uma invisível chaminé. Isto é atraído pelas trocas de vento úmido do nordeste, os quais captam umidade do Atlântico. Este mecanismo, por sua vez, controla a temperatura do oceano. Na medida em que as trocas de ventos captam umidade, a água quente que é deixada torna-se mais salgada e afunda.

(Não tenho certeza de ter entendido e bem traduzido. No original, lê-se: This draws in the wet north-East trade winds, which have picked up moisture from the Atlantic. This in turn controls the temperature of the ocean; as the trade winds pick up the moisture, the warm water that is left gets saltier and sinks).

O desmatamento rompe o ciclo, enfraquecendo a evaporação da Amazônia que impulsiona todo o processo. Resulta disto que a água quente no Atlântico permanece na superfície e alimenta os furacões. Outro resultado é que menos umidade chega à troca de ventos, intensificando a seca na floresta. “Nós acreditamos que se trata de um círculo vicioso”, declara o Dr. Nobre.

Marina Silva, atual Ministra do Meio Ambiente, descreve como o Governo desbaratou o desmatamento pela apreensão de madeira ilegal, fechando as madeireiras ilícitas, multando e prendendo os transgressores. Como resultado, ela afirma, o desmatamento caiu em 31% no ano passado. Mas mesmo assim, ele apenas caiu para os níveis de 2001, ainda o dobro do que era há 10 anos. E o desmatamento adentrou profundamente a floresta, depois que a multinacional americana Cargill construiu há três anos um gigantesco porto para o escoamento da soja em Santarém, a 400 milhas (650 kms) de Manaus. Isto encorajou os empresários a cortar a floresta para plantar soja.

O Simpósio deslocou-se em massa para inspecionar o dano causado por este porto: vastos campos de grãos destinados a alimentar o gigantesco mercado de frangos na Europa, avançando sobre áreas onde até recentemente havia floresta virgem.

Padres e líderes comunitários que lutam para proteger a floresta contaram-nos como vêm recebendo reiteradas ameaças de morte. Até agora, algo como um quinto da floresta da Amazônia foi completamente devastada. Outros 22% foram danificados pela ação das madeireiras (harmed by logging), permitindo ao sol atingir e secar o chão da floresta. A se somarem estes dois percentuais, o total aproxima-se perigosamente dos 50%, número que os modelos computacionais apontam como o “ponto limiar” ("tipping point") que marca a morte da Amazônia.

Os modelos não previam que isto ocorresse antes de 2050. Mas o Dr. Nobre afirma: “o que estava previsto para 2050 pode ter começado a acontecer em 2005”. Ninguém sabe quando o limiar crucial terá sido ultrapassado, mas um número crescente de cientistas acredita que ele está se aproximando sempre mais. Um dos colegas do Dr. Nobre, Dr. Philip Fearnside, colocou a questão deste modo: "A cada árvore que cai, aumentamos a probabilidade de chegarmos ao ponto limiar."

Os políticos brasileiros dizem que o país tem tantos outros problemas prementes, que a destruição não será provavelmente colocada sob controle, a menos que o mundo ajude a pagar pela sobrevivência da floresta da qual ele também depende. Segundo os cálculos de Hylton Philipson, um banqueiro britânico e ativista pelas florestas tropicais, esta ajuda custará 60 bilhões de dólares (23 bilhões de libras), menos de um terço do custo da guerra do Iraque.

Os cientistas insistem que não há tempo a perder. "Se não agirmos agora”, diz o Dr. Fearnside, "perderemos a floresta da Amazônia que ajuda a sustentar as condições de vida do mundo inteiro."

Link padrão:
www.commondreams.org/headlines06/0723-03.htm

Fonte: Grupo de Trabalho da Amazônia - GTA - www.gta.org.br