Trabalho
escravo resiste e Brasil liberta 4.418 pessoas em um ano
Cinco anos depois de Lula
lançar plano de erradicação, governo encontra o problema em 18 Estados em 2008

Brasília,
janeiro de 2.009 - Cinco anos após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançar
o primeiro Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo - em que previa
acabar com o problema até 2006 -, a exploração da mão-de-obra escrava no campo
ainda é uma realidade. Em 2008, foram libertadas no Brasil 4.418 pessoas que
eram mantidas em condições de trabalho análogas à escravidão, segundo números
fechados na última semana pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Passados 120 anos da abolição da escravatura, os fazendeiros modernos não usam
mais correntes, mas continuam escravagistas por cassarem a liberdade dos
trabalhadores. O artigo 149 do Código Penal é claro ao definir como condições de
trabalho análogas à escravidão aquelas em que a vítima for submetida a trabalhos
forçados ou a jornada exaustiva, seja sujeitando-a a condições degradantes de
trabalho, seja restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida
contraída com o empregador.
Os números do MTE mostram libertações de pessoas escravizadas em 18 Estados. A
maior concentração ocorreu onde houve forte expansão da cultura da cana, como em
Goiás e Alagoas, e no Pará, historicamente o maior foco do problema. Em números
absolutos, Goiás liderou a lista: foram 867 encontrados, em 7 fazendas. Alagoas,
que até então não figurava na relação, ficou em terceiro, com 656 libertados.
Nesses Estados, a cultura de cana teve forte expansão, movida pela política de
incentivo ao etanol do governo Lula. No Pará, onde a maioria dos casos está
relacionada à pecuária e à expansão da fronteira agrícola, foram 703 casos, em
73 propriedades.
Um quadro comparativo produzido pela Divisão de Fiscalização e Erradicação do
Trabalho Escravo evidencia como cresceu o percentual de casos nos canaviais, em
relação a outras culturas. Em 2003, de 5.223 pessoas resgatadas no País, 11,4%
estavam em plantações de cana. Em 2005, a participação foi a 32,7%, mas voltou a
cair em 2006, para 8,4%. Em 2007 e 2008, quando ficaram visíveis os primeiros
resultados da política de incentivo ao etanol, os casos ultrapassaram 50%, em
relação ao quadro geral. Os números são de libertações, desconsiderando a
proporção em relação ao total de trabalhadores em cada setor.
A secretária nacional de Inspeção do Trabalho, do MTE, Ruth Villela, responsável
pelos Grupos Móveis de Fiscalização, admite que há relação com o avanço da cana.
"Como o setor está em fase de expansão, precisamos ver se o Estado não está
financiando indiretamente esse tipo de trabalho análogo à escravidão." Ela,
porém, diz que o principal motivo do aumento é outro. Houve "intensificação",
segundo ela, de blitz em canaviais e usinas.
O procurador do Trabalho Jonas Ratier Moreno, coordenador das ações de combate
ao trabalho escravo, lembra que o "comportamento ético nas relações de trabalho
é uma exigência internacional" e acaba sendo usado em discursos que visam
bloquear a entrada de produtos brasileiros no exterior. Em julho, a União
Européia tentou condicionar a abertura do mercado ao etanol brasileiro ao
compromisso de que a produção é ambientalmente sustentável e não usa trabalho
escravo.
COMPARATIVO
Desde 1995, quando foi criado o Grupo Móvel de Fiscalização, 32.185
trabalhadores em condições de escravidão foram resgatados. Em 22.710 autuações,
num total de 2.121 fazendas visitadas, foi obtido o pagamento de R$ 46,4 milhões
em indenizações. Os grupos móveis são compostos por auditores fiscais do MTE,
procuradores, além de agentes e delegados da Polícia Federal. Existem, hoje,
nove grupos.
Em 2008, apesar de o número de operações ter aumento (foram 125), o total de
pessoas flagradas em condições de escravidão caiu em relação a 2007, quando a
marca atingiu o recorde histórico: 5.999. A retração não significa queda dos
casos. Nem o aumento das libertações, notado mais claramente a partir de 2003,
indica maior incidência de casos. "Não podemos usar o número de libertações como
parâmetro. Eles estão relacionados ao número de operações e descobertas de
casos", diz Ruth Villela.
"Eu, particularmente, ainda acredito que seja possível acabar definitivamente
com o trabalho escravo no Brasil", diz a secretária. Tanto ela, como
especialistas e procuradores ressaltam, porém, que sem punições mais severas e
investimentos em educação e combate à miséria, o problema não vai acabar. "Daqui
a 15 anos ainda teremos esses números, se não atacarmos a origem do problema",
diz Moreno.
Sucroalcooleiro é o setor que mais utiliza mão-de-obra escrava, diz Pastoral da
Terra
Brasília - Dos 5.244 trabalhadores que foram resgatados em análoga a escravo em
2008 a partir de 214 denúncias, 2.553 trabalhadores – ou 49% do total – estavam
no setor sucroalcooleiro, e isso tem prejudicado a compra de álcool por países e
investidores estrangeiros, que acabam associando este biocombustível ao trabalho
escravo.
De acordo
com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade responsável pela Campanha
Nacional de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo, a pecuária está em segundo
lugar neste ranking, com 1.026 trabalhadores resgatados. “Parte disso se deve ao
crescimento do setor sucroalcooleiro e do agronegócio de grãos nos cerrados
centrais e nas regiões de fronteira agrícola”, disse o coordenador da campanha
da CPT, Frei Xavier Plassat.
“Dados da
campanha mostram que as áreas geográficas de concentração já antiga ou de
expansão recente da cana-de-açúcar aumentaram dramaticamente sua participação no
total de libertados em flagrantes de trabalho escravo nos últimos dois anos.
Basta constatar que a região Norte, que sempre liderou esses números no passado,
está em 2008 no terceiro lugar pelo número de libertados (19,1%), após o
Nordeste (28,6%) e o Centro-Oeste (32,1%)”, afirmou.
Em 2007, o
Centro-Oeste já havia assumido essa liderança, com 40,3% dos libertados, seguido
pelo Norte, com 34,1%, e pelo Nordeste, com 12,4%.
Os estados
campeões em números de denúncias continuam sendo Pará, Maranhão, Mato Grosso e
Tocantins. A diferença apresentada no estudo relativo a 2008 foi que o Pará, há
anos primeiro lugar também no número de trabalhadores resgatados, ficou dessa
vez em segundo lugar, com 811 trabalhadores resgatados em 109 casos. Em primeiro
lugar ficou Goiás, com 867 trabalhadores libertados em seis casos.
A terceira
posição ficou com Alagoas, com 656 trabalhadores resgatados em 3 casos; e Mato
Grosso, com 578 resgatados em 32 casos.
“Pelo
número de casos encontrados, porém, a Norte continua líder incontestado entre as
regiões, com cerca da metade (48%) das ocorrências de trabalho escravo, contra
18% no Centro-Oeste; 18% no Nordeste; e 8% no Sul e 8% no Sudeste. A Amazônia
concentrou, em 2008, 69% dos registros de trabalho escravo, 49% dos
trabalhadores nele envolvidos e 32% dos resgatados, demonstrando a persistente
dificuldade de acesso da fiscalização neste bioma”, argumenta o coordenador da
Pastoral da Terra.
Em nota, a
Pastoral informou que desde 2007 a utilização de mão-de-obra análoga a escravo
tem crescido no setor da cana-de-açúcar na mesma velocidade que aumenta o
interesse do governo nessa cultura.
“Com o
discurso favorável ao aumento da produção de biocombustíveis o governo tem
desconsiderado os impactos e as conseqüências da produção desenfreada em busca
de lucro, e isso tem levado governos de outros países e investidores
estrangeiros, a se mostrarem reticentes em comprar álcool brasileiro por causa
do estigma de trabalho escravo carregado por esse produto”, diz a nota.
Fonte:
Agência Brasil