Trans-Iriri,
mais uma estrada ilegal desmatando a Amazônia
Ela faz parte de
estimados 168 mil km de rotas abertas na mata por madeireiras clandestinas
São Paulo, 02 de maio de 2.007 - Oficialmente, a loja
de motosserras de Geroan não existe. Nem o posto de gasolina ao lado, a oficina
de motocicletas ou o supermercado União, um barracão onde as prateleiras
cobertas de pó pendem ao peso de dezenas de garrafas de cachaça. Os
estabelecimentos ficam ao longo da Trans-Iriri, uma estrada clandestina que
penetra centenas de quilômetros numa área da Amazônia chamada Terra do Meio.
Essa rodovia não consta de nenhum mapa rodoviário. Oficialmente, a Trans-Iriri
não existe. As estradas ilegais - freqüentemente construídas por madeireiros
ilegais - são um dos maiores desafios para o governo brasileiro no combate ao
desmatamento. Estima-se que existam mais de 168 mil quilômetros dessas estradas
na região amazônica, atravessando áreas protegidas e abrindo caminho para a
destruição da maior floresta tropical do mundo.
Com 200 quilômetros, a Trans-Iriri, que segue na direção oeste, através da Terra
do Meio e a partir de São Felix do Xingu (PA), é a principal delas.
Autoridades do governo recentemente alardearam um certo sucesso no combate ao
desmatamento: entre agosto de 2005 e de 2006, em torno de 13.100 quilômetros
quadrados de floresta foram abatidos, 30% menos do que no período anterior,
2004-2005. Porém, apoiados por essa rede de estradas escondidas, os madeireiros
continuam a destruir a floresta. No Pará, onde está a Trans-Iriri, imagens de
satélite produzidas pelo governo mostram que o corte aumentou 50% desde 2004.
São Félix do Xingu é, pelo quinto ano consecutivo, o município campeão de
desmatamento, com cerca de 770 quilômetros quadrados de floresta derrubados
entre 2005 e 2006.
Cercada pelos Rios Xingu e Iriri, a Terra do Meio - uma área do tamanho da
Escócia - está no centro da destruição. Desde a década de 90, as madeireiras
foram abrindo impetuosamente a Trans-Iriri, fazendo vias secundárias, as
“picadas”, na floresta adentro e gradativamente substituindo a mata por imensas
fazendas de gado.
A partir de 2005, as autoridades criaram duas enormes unidades de conservação.
Áreas de proteção também foram criadas ao longo da rodovia Trans-Iriri e o
Exército foi enviado para patrulhar a região.
“A presença do Exército em 2005 surtiu algum efeito”, diz Marcelo Marquesini, da
ONG Greenpeace. “No entanto, dois anos depois, as operações continuaram
esporadicamente. Quando os soldados vão embora, as pessoas retornam.”
O ambientalista Tarcísio Feitosa da Silva, que no ano passado recebeu o prêmio
Goldman pelo trabalho de proteção da Amazônia, afirma que o mistério que envolve
estradas como a Trans-Iriri ajudou a ocultar essa onda persistente de
destruição. “Oficialmente, essa estrada não existe. Nunca recebeu permissão do
governo”, diz.
Na ausência do Estado, os fazendeiros empregam uma polícia ilegal formada por
pistoleiros para “manter essa estrutura de invisibilidade. É por isso que
ninguém fala da estrada”, afirma Tarcísio, que já recebeu ameaças de morte por
causa do seu trabalho. “E tudo continua como está porque é aqui que estão os
maiores fazendeiros.”
A Terra do Meio é uma espécie de zona autônoma, um buraco negro sobre o qual as
autoridades exercem pouco controle. Catia Canedo, secretária do Turismo e do
Meio Ambiente de São Félix do Xingu, diz, por exemplo, que nunca visitou a
estrada, apesar de o início estar a poucos quilômetros de seu gabinete. Sem uma
força policial para fazer valer as leis (a agência em São Félix do Xingu foi
fechada recentemente) o desmatamento ilegal continua.
Maria Nizan de Souza, que trabalha para um grupo católico que combate o uso de
trabalhadores escravos, muitos deles usados na derrubada de árvores, disse ser
comum ver as toras saindo da floresta. “Hoje três caminhões repletos de madeira
passaram por aqui. Ninguém faz nada - todo mundo está assustado.”
Terra sem Lei
Embora os
ambientalistas chamem a área de Terra do Meio, os brasileiros pobres que vivem
nos pequenos assentamentos existentes ao longo da rodovia, chamam-na
diferentemente. “É uma terra sem lei”, diz um morador de Vila Caboclo, que não
quis dizer seu nome. O lojista Wantui Selvatico, de 42 anos, afirma que os
pistoleiros “são comuns por aqui”. “Não existe nada escondido”, acrescenta,
mudando de assunto rapidamente. “Acho que vou parar por aqui.”
Enquanto isso, a rede de estradas ilegais continua sua expansão. De acordo com
estudo da ONG Imazon, cerca de 1.900 quilômetros de novas estradas são abertos a
cada ano.
Fonte: Estadão (Tom
Phillips, THE GUARDIAN, LONDRES)