
Estudo indica que aumento vertiginoso no fluxo de visitantes
e falta de planejamento causam impactos sociais e ambientais
capazes de ameaçar a atividade turística em Itacaré
(Foto: Secretaria de Turismo da Bahia)
O turismo
de alto impacto ambiental negativo é uma ameaça à preservação ambiental e
cultural
Salvador (BA), abril de 2.008 - O aumento no fluxo turístico ocorrido nos últimos
anos no município de Itacaré, no litoral sul da Bahia, e a falta de planejamento
da atividade turística têm provocado um desenvolvimento “empobrecedor”, que
ameaça o ciclo turístico na região. Esse é um dos diagnósticos de uma pesquisa
realizada na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), na Bahia.
O estudo, de caráter exploratório, aponta o “crescimento desordenado” como uma
das conseqüências mais graves da falta de planejamento no turismo local. Os
resultados foram publicados na revista de desenvolvimento local Interações.
Segundo o autor da pesquisa, Elton Silva Oliveira, do Núcleo Temático de Turismo
para o Desenvolvimento Regional da Uesc, o objetivo foi identificar os impactos
socioambientais e econômicos do turismo e suas repercussões no desenvolvimento
local.
“Os aspectos qualitativos foram priorizados em detrimento dos quantitativos
devido ao caráter social do tema. O turismo em Itacaré tem se caracterizado por
ser ecologicamente predatório, economicamente concentrador, socialmente iníquo e
culturalmente alienante”, disse Oliveira à Agência FAPESP.
Embora o município tenha melhorado sensivelmente seu Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH), de acordo com o pesquisador a forma como a atividade turística se
estabeleceu na região gerou aumento do custo de vida, degradação ambiental,
elevação dos índices de prostituição e do tráfico de drogas, especulação
imobiliária, importação de mão-de-obra e ocupação desordenada.
O pesquisador ressalta que Itacaré não dispõe de uma Secretaria de Turismo nem
de um Conselho de Meio Ambiente e Turismo. “Não existe um plano oficial de
desenvolvimento para o setor. Todas as decisões relevantes referentes à
atividade no município são tomadas em Salvador pelo governo estadual, por
intermédio da Secretaria de Turismo ou pela Companhia de Desenvolvimento Urbano
do Estado da Bahia”, afirmou.
Segundo Oliveira, locais que deveriam ser preservados foram transformados em
zonas turísticas. É o caso da praia do Resende, área adquirida por um grupo
belga que será transformada em um resort. Na praia da Engenhoca, um grupo
português está construindo outro resort.
“Levando-se em consideração que Itacaré está dentro do remanescente da Mata
Atlântica, deveria haver investimentos em uma modalidade de turismo mais brando,
como o ecoturismo, de modo a garantir a preservação do meio ambiente. Contudo,
observamos o rápido crescimento do turismo de massa, que gera alto impacto sobre
o ambiente, pois requer grandes e constantes fluxos de visitantes”, ressaltou.
Oliveira explica que o turismo em Itacaré é sazonal, concentrado na alta estação
e em alta estação diferenciada, no mês de julho. Mas no mês de janeiro há um
fluxo de mais de 120 mil visitantes, número seis vezes maior que o da população
do município, que é de 18.120, de acordo com o censo de 2000.
“Isso gera um grande impacto ambiental devido ao aumento dos efluentes que são
despejados diretamente e sem tratamento no mar, contaminando as praias,
sobretudo as urbanas, e dos resíduos sólidos coletados e armazenados em áreas
inadequadas, que se transformam em lixões a céu aberto”, disse.
Arquitetura
indonésia
De acordo com o autor da pesquisa, o fluxo de turistas aumentou
consideravelmente a partir de 1998, com a conclusão da Estrada Parque, um trecho
de 65 quilômetros ligando Ilhéus a Itacaré. Segundo ele, o quadro tende a se
agravar a partir de 2008, após a conclusão de um novo trecho de 43 quilômetros
da estrada na direção norte, que ligará Itacaré a Camamu.
“A inauguração desse trecho está prevista para este mês. O fluxo de turistas
poderá dobrar ou triplicar rapidamente, uma vez que permitirá que o percurso
feito de carro ou de ônibus entre Salvador e Itacaré seja realizado em apenas
três horas”, disse.
Como conseqüência do processo, os preços se elevam. “Os nativos vendem suas
propriedades e vão morar em áreas afastadas. Também houve um aumento no custo de
vida. Os alimentos ficaram mais caros e, no fim das contas, a população nativa
só ficou com os postos de trabalho de baixa remuneração”, apontou.
O impacto da atividade turística não se restringe ao campo econômico e à
natureza. A comunidade local e sua cultura também sofreram modificações
significativas, segundo Oliveira, que destaca a baixo auto-estima na comunidade.
“As principais festas e manifestações culturais, como a Festa de Reis e o Dois
de Julho [data da emancipação política da Bahia], perdem força. No entanto, o
Ano Novo e o Carnaval, que são festas do calendário turístico, ganham maior
destaque e importância”, disse.
Além disso, segundo o autor, os casarões construídos no período áureo do cacau
estão sendo substituídos por lojas, pousadas e restaurantes com arquitetura no
estilo de Bali, na Indonésia. “Isso ocorre em função da ausência de leis e
políticas públicas locais, que garantam a preservação e valorização do
patrimônio artístico, cultural, histórico e natural da região”, disse.
Para Oliveira, é preciso haver um controle do fluxo turístico na região. Caso
isso não ocorra, segundo ele, a própria atividade turística estará ameaçada. “O
turismo deve ser planejado, administrado, monitorado e empreendido de modo a
evitar danos à biodiversidade e ser ambientalmente sustentável, economicamente
viável e socialmente eqüitativo”, afirmou.
Para ler o artigo Impactos socioambientais e econômicos do turismo e as suas
repercussões no desenvolvimento local: o caso do município de Itacaré - Bahia,
disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP),
>>
clique aqui.
Fonte: Agência FAPESP
