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Construção de usinas no
rio Madeira é debate esquecido nas eleições
de Rondônia
Entrevista com Maria Ireni, secretária executiva da Colônia dos pescadores.
Valter Campanato/ABr |
Porto Velho (Rondônia), 02 de setembro de 2.006 - Faz 40 anos, mas dona Irene se
lembra exatamente da primeira vez que teve de comprar peixe na vida, logo depois
que chegou a Porto Velho com a família, aos 11 anos de idade.
"Eu senti vergonha", conta ela. "Meu pai só tinha dinheiro pra meio quilo. Eu
fui ao mercado e procurei por um amigo dele. Quando falei que queria comprar,
ele me olhou muito sério e colocou rápido meio peixe numa sacola daquelas de
papel. Não quis que eu pagasse nada. Comprei verdura e fruta com o dinheiro."
Maria Irene Pinheiro de Oliveira, 51, é secretária executiva da Colônia de
Pescadores Z-1, em Porto Velho. Ela teme que outras milhares de famílias de
ribeirinhos e pescadores tenham de passar pela mesma experiência de mudar-se
para a cidade.
Projetos da empresa Furnas, do governo federal, prevêem a construção de duas
grandes hidrelétricas no rio Madeira, que banha Porto Velho. Segundo a Federação
das Indústrias do Estado de Rondônia (Fiero), a idéia é que, juntas, as usinas
de Jirau e Santo Antônio gerem 6,4 mil MW – cerca de metade da potência de
Itaipu.
Nos cálculos de ambientalistas do estado, podem ser afetadas de 2 mil a 4 mil
famílias de ribeirinhos – como essa população é dispersa, os cálculos são pouco
precisos.
O economista Valdemar Camata, diretor da Fiero, diz que há R$ 1 bilhão previsto
no projeto para socorrer essa população. Dona Irene não considera que esses
benefícios sejam uma garantia: "Vão dar o quê? Dez, vinte mil reais? Isso não
compra uma casa em Porto Velho".
A expulsão dessas pessoas para as grandes cidades da região poderá ser
acompanhada pelo êxodo rural sustentado pela oferta de empregos nas obras.
Calcula-se que 30 mil pessoas poderão trabalhar como peões na construção das
usinas. Teme-se o que acontecerá com essa gente depois que o concreto secar.
O que causa mais apreensão, porém, é a falta de debate sobre o tema,
especialmente nesse momento de campanha eleitoral. "A impressão que se tem é que
os candidatos ficam olhando o movimento da opinião pública para ver se eles
falam amanhã o que a opinião pública quer ouvir hoje", critica o economista.
Camata é um defensor ponderado da implantação das usinas. Concorda com as
preocupações em relação aos impactos do projeto. "Têm fundamento. Mas esse
confronto entre economia e ecologia se resolve do ponto de vista tecnológico. Há
tecnologias para resolver os problemas de devastação."
A falta de debate sobre o projeto agravou-se nesse período eleitoral, na visão
do ambientalista e geógrafo Alexis Bastos, representante em Rondônia do Grupo de
Trabalho Amazônico (GTA), uma rede de mais de 600 organizações da sociedade
civil.
"O tema é muito polêmico, então se está falando menos disso. Lógico que todos
aqui querem o desenvolvimento, mas o problema é que esse pessoal só quer o
caminho mais fácil", critica.
"Quando eles convidam para uma reunião, não é para debater, é para comunicar uma
decisão que já foi tomada", ironiza o pescador Célio Lopes, 48, outro dirigente
da Colônia Z-1.
"Essas usinas aí, isso é fato sacramentado. Tivemos algumas reuniões com Furnas,
e eles dizem que a decisão já está tomada. Os candidatos, na televisão, só sabem
é falar que isso vai trazer 30 mil empregos e não sei que mais. Ninguém lembra
dos ribeirinhos."
"Mas isso ainda dependa da licença a ser dada pelo Ibama para o projeto, não,
seu Célio?", pergunto. "Se não deu, vai dar. É questão de dias", responde ele,
impassível em sua desesperança.
O que Célio mais estranhou quando, aos 15 anos de idade, teve de mudar com a
família do sítio que vivia na beira do baixo rio Madeira para a capital foi a
porta fechada da casa, na hora de dormir.
"Eu me senti preso. Lá no nosso sítio, era sempre fresco à noite, janela e
porta, tudo aberto. Eu trabalhava com meu pai na roça, ajudava a pescar e nunca
tinha sentido fome."
Fonte: Spensy Pimentel, Repórter da Agência Brasil

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