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Ambientalistas temem
impacto ecológico das usinas de Jirau e Santo Antônio,
no rio Madeira, em
Rondônia
Entrevista do presidente da
ONG ambientalista Rio Terra, Alexis Bastos. foto: Walter Campanato/ABr |
Porto Velho
(Rondônia), 02 de setembro de 2.006 - Além dos efeitos sociais da construção das
usinas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, ambientalistas de Rondônia
também temem seu impacto ecológico. A construção das usinas pode ocasionar um
extermínio das espécies de peixe no rio.
"A ictiofauna do Madeira é a segunda mais rica do mundo", afirma o ambientalista
e geógrafo Alexis Bastos, representante do Grupo de Trabalho Amazônico no
estado.
São cerca de 700 espécies de peixe, segundo ele, mesmo número de espécies de
aves na região. Pelo menos o impacto sobre os peixes é considerado inevitável,
mesmo na avaliação dos defensores da usina, como o economista Valdemar Camata,
da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (Fiero).
"Estudos de Furnas mostram que, no primeiro ano após a construção de uma
barragem, desaparecem 70% das espécies de peixe", diz Bastos.
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) foi uma das primeiras
empresas a ter de lidar com essa problemática no país, nos anos 70. Segundo
técnicos da empresa, esse impacto acontece por dois motivos: primeiro, porque
várias espécies só se reproduzem se subirem o rio (a chamada piracema).
As barragens impedem esse movimento. Mesmo a construção de escadas e elevadores,
segundo Bastos, não tem eficiência completa, porque parte das espécies não
consegue subir o rio por esse meio.
Segundo motivo: as espécies tendem a desaparecer após a construção de uma
barragem tem relação com a mudança no regime hídrico de um rio. Normalmente, ele
oscila, ao longo do ano, subindo e descendo conforme as chuvas.
Às margens, quando o rio baixa, formam-se pequenas lagoas, onde se criam os
alevinos. Grosso modo, o período de crescimento dos filhotes corresponde a nova
elevação do nível das águas. Com a cheia, os peixinhos vão para o leito do rio
já suficientemente desenvolvidos para enfrentar os predadores e outros inimigos
naturais.
Bastos e Camata divergem com relação a outra questão: o alagamento ocasionado
pela usina. Segundo o ambientalista, diferentes versões do projeto foram
apresentadas publicamente, em diferentes momentos, e não há clareza sobre que
área ficará submersa.
Já Camata afirma que não há discrepância e que a tecnologia a ser utilizada vai
fazer com que o rio simplesmente fique estancado em seu volume de cheia. Segundo
ele, o único impacto, portanto, será o fim da agricultura de várzea praticada
pelos ribeirinhos.
Uma outra ameaça ao ecossistema amazônico, segundo Alexis Bastos, pode ser a
construção de eclusas no rio Madeira. Trata-se de uma parte do projeto das
usinas que ainda está em discussão, mas é defendida, por exemplo, pela Fiero.
As eclusas, segundo o ambientalista, proporcionariam que grandes barcaças de
grãos, por exemplo, subissem o rio até a divisa com a Bolívia, entrando no rio
Madre de Dios e chegando ao Pacífico. O mesmo caminho poderia ser feito pelo rio
Guaporé, no sudoeste do estado.
Esse eixo de transporte poderia ser vantajoso para os produtores do Norte e do
Centro-Oeste que exportam soja para o mercado asiático, por exemplo, porque a
rota marítima diminuiria consideravelmente, barateando o produto. O problema é
que isso poderia ampliar a pressão do agronegócio, na visão dos ambientalistas.
O novo caminho serviria como um incentivo adicional para pecuaristas,
madeireiros e sojicultores promoverem o desmatamento e a exploração ilegal da
floresta.
Os empresários apostam na capacidade do Estado de regular e fiscalizar. Rondônia
foi o primeiro estado a ter uma lei que estabeleceu um zoneamento
econômico-ecológico. Trata-se de uma espécie de mapeamento que define os locais
onde se pode estabelecer cada atividade econômica num território.
Hoje, segundo a Fiero, apenas 30% da área de Rondônia está desmatada, e há
reservas legais no restante do território.
Os ambientalistas, porém, desconfiam dessa capacidade. "O governo do estado
chega a estimular a invasão de áreas indígenas e unidades de conservação. É uma
visão muito imediatista, querem é ganhar dinheiro com a madeira, a soja", diz
Bastos.
Um exemplo tirado na ponta do lápis ajuda a compreender essa desconfiança. Nas
contas da Fiero, Rondônia cresceu 55% nos últimos três anos. "Mais que a China",
destaca Camata. "Isso aqui tem tudo para se tornar uma 'Nova Califórnia."
O economista diz que o setor madeireiro já foi responsável por 70% do Produto
Interno Bruto do estado, mas que essa realidade está mudando.
O engenheiro agrônomo Eribaldo Menezes Cardoso estuda o setor madeireiro em
Rondônia há 23 anos. Ele calcula que a madeira ainda é responsável por 37% do
PIB do estado, que hoje é de cerca de R$ 9 bilhões.
Nada menos que 85% desses mais de R$ 3 bilhões correspondem a madeira irregular,
de alguma forma – desde a falta de um plano de manejo até a compra de documentos
falsos para produto extraído de forma irregular.
Cardoso diz que as dificuldades criadas por órgãos ambientais incentivam a
ilegalidade. A análise de um plano de manejo, que, segundo ele, deve demorar,
por lei, no máximo 45 dias, chega a levar o dobro do tempo, 90 dias.
Isso, somado com a facilidade com que se pode obter documentos ilegais e
subornar fiscais, formaria a receita da marginalidade no setor. "Claro que há
muita desorganização, mas existem empresários sérios. O problema é que, mesmo
quem quer se regularizar, muitas vezes não consegue", lamenta ele.
Fonte: Spensy
Pimentel, Repórter da Agência Brasil

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