Vaga-lumes sinalizam impactos
ambientais

(foto:
Cratomorphus concolor)
São Paulo,
julho de 2.009 - O Brasil é o país com maior diversidade de espécies
luminescentes no mundo. A emissão de luz fria e visível por seres vivos é
observada em organismos que vão de bactérias a peixes, incluindo vaga-lumes e as
chamadas larvas “trenzinho”, que emitem luz em duas cores.
Entender como a luz é produzida nesses organismos pode iluminar o caminho para o
diagnóstico e tratamento de doenças como câncer e infecções bacterianas. As
enzimas responsáveis pela bioluminescência – as luciferases, que catalisam a
reação que produz a luz nos animais, e as proteínas fluorescentes, que têm a
propriedade de mudar a cor da luz – estão sendo aplicadas em biotecnologia e em
bioimageamento de processos patológicos.
Dada a importância dos organismos bioluminescentes, sua conservação é prioridade
para Vadim Viviani, professor do campus de Sorocaba da Universidade Federal de
São Carlos (UFSCar). Ele investiga, há mais de dez anos, o mecanismo de
funcionamento da bioluminescência e as possibilidades de aplicação como agentes
bioanalíticos, bioindicadores e biossensores.
Há dois anos, Viviani coordena o projeto de pesquisa “Vaga-lumes da Mata
Atlântica – Biodiversidade e uso como bioindicadores”, apoiado pela FAPESP na
modalidade Auxílio a Pesquisa – Regular e realizado no âmbito do programa
Biota-FAPESP.
“Com os impactos ambientais, a riqueza desses organismos está se perdendo. Para
utilizar espécies como o vaga-lume para essas finalidades, é necessário
preservá-las, principalmente conservando seus ambientes naturais”, disse à
Agência FAPESP.
Nesse estudo, a equipe orientada pelo pesquisador, que também é líder do grupo
Bioluminescência e Biofotônica do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), está catalogando a biodiversidade de vaga-lumes
na Mata Atlântica do Estado de São Paulo, estudando sua evolução sob o aspecto
molecular e avaliando algumas espécies-chave como indicadores ambientais de
áreas palustres e ribeirinhas.
A Mata Atlântica é um dos ecossistemas mais ricos em vaga-lumes no mundo. Em um
único trecho, em Salesópolis (SP), por exemplo, foram catalogadas 50 espécies.
Segundo Viviani, embora o Brasil concentre cerca de 25% das 2 mil espécies
descritas, não se aproveita o potencial do vaga-lume como bioindicador de
impacto ambiental.
Existem espécies que vivem em ambientes palustres (aquáticos). Quando a água
está poluída desaparece o caramujo, que é o alimento do vaga-lume, e, com isso,
a espécie some. Já em locais em que os cursos de água (brejo) estão preservados,
o inseto permanece ou volta. “No Japão, vaga-lumes são muito usados como
bioindicadores na recuperação de cursos de água”, comentou.
Tais insetos também são bons modelos para entender o impacto da poluição
luminosa. Eles usam seu sinal luminoso para fins de reprodução – é um padrão de
comunicação sexual. Quando o nível de iluminação de fundo aumenta, macho e fêmea
não conseguem se localizar pelo sinal.
De acordo com Viviani, o impacto da poluição luminosa ocorre em diversos
organismos, principalmente os noturnos. Pode afetar a relação predador-presa
tornando um ou outro mais visível.
Os filhotes de tartarugas marinhas, por exemplo, quando os ovos eclodem, se
orientam pela luz das estrelas a caminho do mar. Quando avistam luz da cidade
seguem na direção contrária, comprometendo sua sobrevivência. “Infelizmente,
nunca foi dada muita atenção para a poluição luminosa”, ressaltou.
Conhecimento
acumulado
Há muito interesse em saber qual o mecanismo de funcionamento das enzimas
relacionadas com a bioluminescência e, a partir disso, tentar modificá-las para
torná-las ainda mais aplicáveis do que já são, inclusive na área ambiental.
Existem, por exemplo, diversos biossensores que usam luciferases de vaga-lume,
em nível molecular, para detectar agentes tóxicos na água.
Recentemente, outro grupo orientado por Viviani comparou enzimas luciferases
clonadas com uma proteína semelhante, mas fracamente bioluminescente – uma
AMP-ligase, presente em todos os organismos e que desempenha variadas funções
metabólicas.
O objetivo foi descobrir se e como a AMP-ligase pode adquirir a propriedade de
produzir luz. Segundo o professor da UFSCar, esse tipo de informação pode ajudar
a tornar mais eficientes as enzimas que já produzem luz e tornar enzimas que não
produzem em luminescentes.
Durante o 15º Congresso Internacional de Fotobiologia, realizado em Dusseldorf,
na Alemanha, de 18 a 23 de junho, Viviani coordenou o Simpósio de
Bioluminescência, no qual importantes avanços científicos sobre a estrutura e
função dessas enzimas e as crescentes aplicações em bioimageamento foram
discutidos por cientistas de diferentes nacionalidades.
Em 2008, o conhecimento produzido por diversos especialistas da área de
bioluminescência foi apresentado no livro Luciferases and fluorescent proteins:
principles and biotechology and bioimaging (Luciferases e proteínas
fluorescentes: princípios e avanços em biotecnologia e bioimageamento), editado
por Viviani.
Fonte: Agência FAPESP