Vale
do Paraíba (SP) sob ameaça de racionamento e má qualidade da água
São José dos Campos,
em 22 de março de 2.004
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As
represas da região do Vale do Paraíba são abastecidas pelas águas do Rio
Paraíba do Sul e seus afluentes e serão obrigadas a diminuir a vazão para
aumentar o nível e possibilitar o abastecimento de água das cidades, o que irá implicar em risco de baixa
qualidade da água, em razão da poluição de esgoto e indústria.
A vazão das quatro represas que controlam o nível do Rio Paraíba do Sul
(Paraibuna-Paraitinga, Santa Branca e Jaguari, no Vale do Paraíba, e Funil, no
Rio de Janeiro) foi reduzida com base na Resolução 98 da ANA (Agência
Nacional das Águas) do último dia 8.
Controlada pelas represas, a vazão do rio Paraíba do Sul atingiu ontem a menor
média da história. O objetivo é elevar até abril de 39% para 42% a
capacidade dos reservatórios de cabeceira --responsáveis pelo controle do nível
do rio-- e evitar a falta de água no período de seca.
No entanto, a vazão limitada poderá afetar o sistema de captação e a
qualidade da água do rio, que está sendo monitorada pela Cetesb (Companhia de
Tecnologia de Saneamento Ambiental).
Desde anteontem, a vazão da represa de Paraibuna para o rio caiu de 30 mil
litros de água por segundo para 6.000. Na represa do Jaguari, a vazão também
foi reduzida de 10 mil litros para 7.000. E na represa de Santa Branca, a queda
foi 40 mil litros por segundo para 35 mil. Os índices anteriores eram
praticados em 2003.
Segundo o CBH-PS (Comitê da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul), a
diminuição da vazão foi a única alternativa encontrada para evitar colapso no sistema de
abastecimento de água no período seco, até novembro.
A previsão é que a redução permaneça, ou aumente, até abril, quando começa
a época de estiagem e o aumento da liberação de água no reservatório do
Funil.
"Pretendemos atingir o mesmo percentual registrado em abril do ano passado,
quando os reservatórios estavam com 42% da capacidade. Hoje estamos com 39%. Se
não houver a restrição não será alcançado nem mesmo o nível de 2003", disse o presidente do CBH-PS, Benedito Jorge dos Reis.
A situação do município de Jacareí, uma das cidades mais populosas da
região, com 250.000 habitantes é uma das mais críticas. A cidade não tem
tratamento de esgoto que é despejado in natura no rio Paraíba, o que agrava
ainda mais a situação.
Para o presidente do
SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Jacareí, Stélio
Machado Loureiro Filho, a situação hoje "é muito preocupante, pois a captação do Paraíba corresponde a 90% da água distribuída
no município".
"Estamos em estado de alerta, trabalhando abaixo da média histórica. Se a
vazão continuar como hoje, ainda não corremos risco de desabastecimento. Mas
se diminuir ainda mais, não tenho idéia do efeito porque nunca enfrentamos
situação como esta", disse.
Em caráter emergencial, o SAAE promoveu limpeza no canal de captação. Ontem,
a água do canal marcava somente 30 centímetros de altura, sendo que sua
capacidade é de 1,20 m.
Na opinião de ambientalistas, a redução da vazão vai resultar na piora da
qualidade da água porque
a maioria dos municípios que dependem da água do Rio Paraíba do Sul não tem
tratamento de esgotos e a pouca quantidade de água irá
tornar mais difícil o tratamento da água.
O assessor da presidência
do CEIVAP, Edilson de Paula Andrade, admitiu ontem a possibilidade de suspender
a redução da vazão, caso o nível da água comprometa em demasia a qualidade
da água.
"A Cetesb dará a opinião técnica para que a qualidade da água não fuja
do controle. Se houver indícios de sérios problemas como mortandade de peixe,
a baixa qualidade da água certamente irá afetar a população e a medida será
imediatamente suspensa. Se não chover, o problema certamente será
agravado".
Ambientalistas da
região afirmaram que a crise vem sendo anunciada há pelo menos uma década.
"Estamos alertando para o problema crítico que vem acontecendo, as
represas estavam diminuindo ano a ano a sua capacidade e agora está se
acelerando essa diminuição. Entretanto, apesar dos sucessivos alertas, não
foram adotadas providências para solução com a rapidez que o problema exige.
A falta do tratamento de esgotos, aliado ao desperdício, ao desmatamento,
à poluição e aterramento de nascentes, córregos e cursos d'água para
instalação de loteamentos, está precipitando colapso até no abastecimento de
água das cidades.
No conjunto, é a
conseqüência fatal de uma péssima gestão ambiental das cidades da região, que
torna crônica a falta de conscientização decorrente da ausência de educação
ambiental, propiciando a degradação dos recursos hídricos e o desperdício e
criando uma situação de penúria ecológica que certamente irá se agravar neste e
nos próximos anos".
