O Clima no planeta
 


São Paulo, ano de 2.005 - O clima em nossa atmosfera exerce enorme poder sobre a vida de praticamente todos os seres da Terra. Perceber que estamos influenciando tamanho poder natural é assustador. Primeiro porque significa que nos tornamos uma influência geofísica no planeta, como de fato nos tornamos.

Segundo, pela responsabilidade que isto implica. A atmosfera terrestre é composta por uma série de gases, entre os quais vapor d'água, dióxido de carbono (CO2) e metano, que retêm o calor das radiações solares. Estes gases de efeito estufa são capturados pelos oceanos, florestas e pastagens, como parte natural do ciclo de carbono. Desde o inicio da Revolução Industrial, no entanto, as ações do homem vêm contribuindo significativamente para o aquecimento global, na medida em que liberamos mais gases de efeito estufa e diminuímos, muitas vezes através de queimadas (que liberam ainda mais CO2) a cobertura florestal.

Nos últimos dois séculos, a concentração atmosférica de gases de efeito estufa aumentou de 280 ppm (partes por milhão) para 370 ppm, devido principalmente ao uso de combustíveis fósseis e à queima de florestas. Durante o último século, a temperatura mundial aumentou em cerca de 1ºC e as estimativas são de que aumente mais 1 a 5ºC nos próximos 100 anos.

A última variação de 4 a 5ºC, no entanto, demorou cerca de 10.000 anos (desde a última era glacial) para ocorrer, período durante o qual as espécies do planeta tiveram tempo para se adaptarem às mudanças, queira por seleção natural, queira pelo eventual deslocamento de florestas (sementes e mudas ao Norte da floresta brotam, por exemplo, enquanto as árvores ao Sul vão morrendo). O problema é que uma variação de, digamos, 4ºC em um período de apenas 100 anos não daria a muitas espécies da Terra tempo suficiente para adaptarem-se às mudanças e milhares delas, possivelmente ecossistemas inteiros, seriam perdidas.

O maior perigo de iniciarmos (ou continuarmos em) um processo ameaçador para milhares de espécies é que estamos apenas começando a compreender a susceptibilidade destas à variações climáticas e o papel de diversas espécies nos equilibrados ecossistemas mundiais e, conseqüentemente, em nossas próprias vidas. Um clássico exemplo é o das lontras da floresta kelp (uma alga gigante) na Califórnia, que foram caçadas até a beira da extinção por seu pêlo.

Colocado da forma mais simples possível: estas lontras se alimentavam primordialmente de ouriços, que por sua vez se alimentavam de kelp. Sem as lontras, os ouriços proliferaram-se e praticamente destruíram a alga, e com ela toda a base desta floresta oceânica. Uma vez notado o ocorrido, as lontras foram protegidas por lei e, gradativamente, a floresta também voltou a florescer. Como podemos notar no exemplo acima, o problema com as espécies chaves é que normalmente percebemos que são "chaves" somente após seu quase desaparecimento. Neste caso tivemos sorte pois as lontras e as algas não foram destruídas além de seu ponto de retorno e a floresta pôde recuperar-se em um período relativamente rápido.

Há, no entanto, outras espécies chaves de maior importância para ecossistemas mais significativos do que a floresta kelp na Califórnia, e sua existência está cada vez mais ameaçada pela elevação da temperatura global. Um claro exemplo disto são os recifes de coral ao redor do mundo que, embora cubram apenas 1% da superfície oceânica, abrigam ¾ de todas as espécies de peixes marinhos. No final da década passada, 10% dos corais do mundo foram perdidos devido a uma variação média de 1º C na temperatura da água durante apenas 10 semanas.

Especialistas consideram que dois terços de nossos corais estão em risco de morrerem devido principalmente à elevação da temperatura mundial. Caso isto ocorra, é provável que metade dos peixes do oceano desapareçam. Por que conhecemos tão pouco sobre as funções e a sensibilidade de espécies chaves até mesmo para nossa própria sobrevivência (como é o caso de muitos microorganismos), todo cuidado é pouco.

Como se não bastasse estarmos aumentando o ritmo de mudança na Terra, estamos destruindo habitats e diminuindo a biodiversidade que torna as espécies e ecossistemas mais capacitados a adaptarem-se às novas condições. A atmosfera terrestre é possivelmente o assunto mais unificador que existe, pelo simples fato de que nossa atmosfera é uma só, é do interesse de todos que seja preservada, e qualquer campanha para solucionar a aceleração do efeito estufa teria de ser uma iniciativa internacional. Enquanto campanhas contra a fome seriam direcionadas às partes mais pobres do mundo ou campanhas para proteger a biodiversidade se concentrariam nos locais mais biologicamente ricos, uma iniciativa para cuidar de nosso planeta demonstraria a união e o amadurecimento da comunidade mundial.


Fonte: World Watch Institute