Descarbonizando o turismo

O turismo mundial movimentou 5,49 trilhões de dólares em 2004. 215 milhões de empregos, 8,1% dos empregos mundiais, estão ligados à atividade do turismo. Globalmente, 73 milhões de pessoas são diretamente empregadas por esta pulsante industria.

Em 2004, 760 milhões de chegadas turísticas foram registradas no mundo, 10% a mais que em 2003. A Organização Mundial do Turismo prevê que o crescimento de chegadas vai mais que duplicar, alcançando 1,56 bilhão em 2020. Com essa extraordinária expansão, estima-se que o turismo movimentará cumulativamente cerca de 100 trilhões de dólares nos próximos quinze anos.

Grande consumidora de combustíveis fosseis, a industria sem chaminé tem parcela de responsabilidade pelas mudanças climáticas, gerando ônus para comunidade global. Em 2004 o consumo global de combustíveis fosseis cresceu 3.4%, o maior ritmo de crescimento em 16 anos.

Transformar ônus em bônus, aproveitando os mecanismos do ecomercado inaugurado pelo Tratado de Kyoto é uma oportunidade que não pode ser perdida. Investindo no diferencial competitivo, companhias aéreas já oferecem pacotes para seqüestrar carbono. Em viagem de ida e volta entre Londres e Roma, uma distância de 2.886 quilômetros, cada passageiro paga 9.35 dólares para os serviços de seqüestro de 0.37 tonelada de carbono per capita, emitida no trecho.

Uma viagem de ida e volta entre São Paulo e Nova Iorque cada passageiro é responsável pela emissão de 2.17 toneladas de carbono que custa aproximadamente 26.34 dólares para ser seqüestrado, a preços de hoje. Empresas aéreas já estão investindo no balanço energético positivo, disputando clientes, revelam pesquisas do WWI-Worldwatch Institute. O sistema de bônus de milhagem poderá ser adaptado para atender a um novo esquema de bônus de estabilização climática.

"Os países industrializados que devastaram a maior parte de seus recursos naturais na busca da prosperidade, estão apressadamente investindo na sustentabilidade. Hoje a economia é entendida como parte do meio ambiente e não o contrario", afirma Lester Brown, fundador do WWI. Brown sabe que 52% dos 53 trilhões de dólares anuais gerados pelo PIB global ficam concentrados com 12% da população mundial "industrializada" que vive nos EUA, Europa e Japão. Sozinhos esses mega mercados emissores movimentam 90% do turismo no mundo.

O fenômeno do aquecimento global é o mais alarmante, desequilibra os ecossistemas provocando impactos em diferentes áreas. Aparentemente distantes, mudanças climáticas e biodiversidade estão intimamente ligadas. O aquecimento global que degela as calotas polares também afeta a produtividade na agricultura e impacta a saúde pública criando, por exemplo, condições para proliferação do mosquito  transmissor da malaria, que afugenta o turista.

O Fórum Mundial de Turismo para a Paz e o Desenvolvimento Sustentável a ser realizado no Rio em outubro próximo é um momento oportuno para o lançamento de campanha mundial da industria do turismo pela estabilização climática. Uma ação que pode ser articulada com o atuante Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Os projetos de seqüestro de carbono, ainda presos a questões técnicas, acadêmicas e burocráticas, estão distantes do grande mercado. Ligando o seqüestro de carbono a produtos e serviços de uso corriqueiro, como passagens aéreas, massas de recursos são carreadas para esses "negócios limpos", ajudando a descarbonizar o turismo e o planeta.

É possível também seqüestrar carbono devolvendo-o à sociedade sob forma de chocolate. O projeto "Fazenda de Chocolate" liga o seqüestro de carbono à preservação da biodiversidade da área chamada de Corredor Central da Mata Atlântica, visando o aumento das reservas legais (20% das áreas de mata protegidas por lei em cada propriedade rural) das fazendas de cacau do sul da Bahia, através dos Mecanismos e Desenvolvimento Limpo-MDL do Tratado de Kyoto.

O chocolate que movimenta uma economia global de 60 bilhões de dólares/ano, deriva do carbono seqüestrado pelas arvores do cacau.

As áreas das fazendas de cacau da Bahia foram batizadas de hot-spots do chocolate por registrar recordes em biodiversidade no mundo, 456 diferentes espécies vegetais por hectare.

Desenvolvido pela UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica, divulgado pelo WWI e adotado pelo PNUD como integrante dos ODM-Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, o projeto "Fazenda de Chocolate" está atraindo a atenção da industria chocolateira para a produção in-loco o chocolate, agregando valor ao cacau, gerando lucro social, econômico e ecológico de forma integrada e contribuindo para descarbonizar uma modalidade única de turismo, iniciada no Brasil, o ecoturismo do chocolate.

Fonte: Eduardo Athayde, diretor da UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica e do WWI-Worldwatch Institute no Brasil www.wwiuma.org.br


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