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No Dia
Internacional da Biodiversidade, o ambientalista e cientista americano Thomas Lovejoy
(foto)
apresenta pontos importantes do Terceiro Panorama da Biodiversidade Global "Os cenários apresentados não são animadores, mas, apesar de as metas não terem sido cumpridas, é preciso manter o otimismo", afirma o cientista
A
afirmação de Lovejoy – que criou o termo "diversidade biológica" – referia-se ao
papel do cientista na tarefa de construção de uma “consciência pública” para
reverter o processo de perda de biodiversidade. “Precisamos reverter esse
processo. Para isso, a decisão passa por todas as instâncias do poder, mas passa
também pelo envolvimento de toda a sociedade”, disse à Agência FAPESP.
O
evento, realizado no Palácio dos Bandeirantes, teve a presença do presidente da
FAPESP, Celso Lafer, representando o governador Alberto Goldman, e foi
organizado pelo Programa Biota-FAPESP como parte das atividades do Ano
Internacional da Biodiversidade, declarado pela Organização das Nações Unidas
(ONU).
Lovejoy destacou pontos importantes do Terceiro Panorama da Biodiversidade
Global (Global Biodiversity Outlook - GB3), recém-lançada publicação
da Convenção sobre a Biodiversidade Biológica (CBD) da ONU.
O
documento é baseado em cerca de 500 trabalhos científicos e em relatórios
nacionais e cruza dados de outros relatórios, como o Living Planet Index
e o Red List Index.
A
conclusão mais categórica do panorama ressalta que a meta de redução da perda da
biodiversidade para 2010 não foi alcançada em nível mundial. As populações de
espécies de vertebrados reduziram-se em quase um terço, em média, entre 1970 e
2006, e continuam caindo globalmente, de forma mais severa nos trópicos e entre
espécies de água doce.
Lovejoy, que foi chefe responsável pela revisão do documento, apresentou o
quadro atual da biodiversidade e focou em alguns pontos específicos do panorama,
em especial no caso da Amazônia, que ele pesquisa há mais de quatro décadas.
"Os
cenários apresentados não são animadores, mas, apesar de as metas não terem sido
cumpridas, é preciso manter o otimismo. Os resultados são uma oportunidade para
melhorar e criar soluções e buscar novas formas de explorar a biodiversidade de
forma sustentável”, disse.
O
relatório aponta que das 11 metas acordadas por governos de todo mundo em 2002
nenhuma foi alcançada globalmente, apesar de em algumas ter havido pequenos
avanços, como a situação das espécies ameaçadas, classificada como “algum
progresso”, e a redução da poluição e de seus impactos sobre biodiversidade, que
figura no texto como “progresso significativo”.
No
entanto, o consumo não sustentável aumentou e continua a ser uma grande causa da
perda da biodiversidade. Além disso, muitos recursos biológicos que sustentam
meios de subsistência, como peixes, mamíferos, aves, anfíbios e plantas
medicinais, estão em declínio, afetando as populações mais pobres.
De
outro lado, existem dados um pouco mais animadores. Segundo o panorama, de 1970
a 2006 as áreas de proteção terrestres no mundo aumentaram de 4 milhões para 14
milhões de quilômetros quadrados. Houve também um aumento nas áreas marinhas
protegidas.
“Contudo, a meta a ser atingida em 2010 era que pelo menos 10% de cada região
biologicamente relevante no mundo deveria estar dentro de uma área protegida”,
disse Lovejoy. Segundo o relatório, 44% das ecorregiões terrestres (zonas com
uma grande proporção de espécies e tipos de habitats partilhados) e 82% das ecorregiões marinhas se encontram abaixo do objetivo de 10%.
O
Terceiro Panorama da Biodiversidade Global considera que as cinco principais
pressões que estão causando diretamente a perda da biodiversidade são alterações
nos habitats, sobreexploração, poluição, espécies exóticas invasivas e
alterações climáticas.
As
previsões climáticas há cerca de seis anos mostravam uma projeção de aumento de
cerca 1,5º C da temperatura na atmosfera. Ao indicar o movimento da massa de
umidade no planeta mostrando a Amazônia, Lovejoy disse que se o aumento da
temperatura global não ficar abaixo dos 2º C haverá um "deslocamento de
umidade", que alteraria o ciclo da chuvas na América do Sul e aceleraria o
processo de “savanização da Amazônia”.
“A
soja na região pantaneira é beneficiada pelas chuvas que são geradas na região
Amazônica. Mudar esse ciclo seria um desastre porque mexeria com a estabilidade
climática desses ecossistemas na grande maioria dos ambientes sul-americanos”,
destacou.
Apesar
de ainda ser considerada uma área crítica – se no futuro forem mantidas as
condições atuais de aumento de temperatura e acúmulo de gases estufa na
atmosfera – o relatório indica que o número de áreas de reserva na Amazônia
cresceu. Mas outro dado contrastante é que, apesar da taxa de desmatamento da
floresta ser positiva – caiu 74% de 2003 a 2009 – a projeção futura aponta que o
desmatamento chegará a mais de 20% da área da floresta original
A
maioria dos ecossistemas terrestres e aquáticos também está se tornando cada vez
mais fragmentada. De acordo com o panorama, se a situação atual não mudar, no
futuro mais de metade dos habitats marinhos não serão propícios para a formação
dos corais.
“Os
sistemas de corais são hipersensíveis. O aumento na temperatura do mar
influenciará na relação entre os corais e as algas marinhas. Além disso, o
aumento da acidez nos oceanos, que parece imperceptível para as pessoas, está
longe de ser imperceptível para os organismos marinhos”, disse Lovejoy.
O
ambientalista afirma ainda que se a temperatura média global ultrapassar os 2º C
e as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera alcançarem as 450 partes
por milhão (ppm), os ecossistemas marinhos não sobreviverão. “Precisamos
reverter essa situação e manter a concentração de dióxido de carbono em 350 ppm,
ainda menor do que a taxa atual, que beira os 390 ppm", disse.
O
Terceiro Panorama da Biodiversidade Global será apresentado na Conferência
das Partes na Convenção, que será realizada em outubro de 2010, em Nagoya
(Japão). O objetivo é que o documento se torna a base da análise do plano
estratégico para a próxima década da Convenção sobre Diversidade Biológica.
Lovejoy destacou ainda a importância do programa Biota-FAPESP como um exemplo a
ser seguido. “O Biota merece ser replicado e espalhado por todo o mundo. É um
modelo notável para gerir programas de recursos biológicos”, disse.
Para
Celso Lafer, presidente da Fundação, o Biota é um programa que orgulha qualquer
dirigente de uma instituição de pesquisa como a FAPESP. “O programa é moderno do
ponto de vista do trabalho de pesquisa. Ele constrói redes, une pesquisadores e
permite que as sinergias das nossas universidades possam estar em marcha para o
avanço do conhecimento”, destacou.
De
acordo com Carlos Alfredo Joly, coordenador geral do Biota-FAPESP e professor do
Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em dez
anos o programa já catalogou cerca de 2 mil novas espécies no Estado de São
Paulo.
“Mas,
na segunda fase do programa, no plano estratégico para os próximos dez anos,
nosso desafio é conseguir também uma inserção internacional mais forte. Temos
participado de diversos fóruns no exterior e feito parcerias com esse objetivo”,
disse.
Outro
desafio, aponta, é tornar o conhecimento científico produzido pelos integrantes
do Biota-FAPESP mais próximo da população, em particular de jovens do ensino
fundamental e médio. “Por isso, nessa segunda fase do Biora, vamos levar o
conhecimento do programa a esses alunos”, afirmou.
Biota-FAPESP: www.biota.org
Fonte: Alex Sander Alcântara da Agência FAPESP
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